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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Casa do Xadrez onde aprender a jogar Xadrez ou melhorar o seu nivel parte 1

Entrevista com Julio Lapertosa - por Gérson Batista

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006 | 13:26

"Busco tirar o conhecimento técnico do abstrato e passar para o concreto..."

Temos o enorme prazer de levar ao ar esta reportagem com o principal ícone de nossa modalidade no Estado de Minas Gerais, uma unanimidade no quesito competência nos tabuleiros e um gentleman na vida. 

Meu primeiro contato com o hoje instrutor, escritor, jogador e árbitro Julio Lapertosa se deu na capital mineira em 1992, num Campeonato Estadual por Equipes. De lá para cá foram dezenas de torneios juntos, onde a cada evento Júlio demonstrava uma visível melhora em seu nivel como jogador e surgia com um maior número de alunos. 

Instrutor da Fide e ex-campeão brasileiro amador, é professor da Casa do Xadrez em Belo Horizonte, onde vem lapidando talentos de projeção nacional como Roberto Molina, Frederico Gazel, Francielle Cury, Fernanda Rodrigues, Igor Mota, Arthur Chiari, entre tantos outros alunos de expressão. 

Na Casa do Xadrez, que funciona como clube/escola e detém uma das melhores estruturas do país, Julio é reverenciado pelos alunos e respeitado pelos visitantes. Juntamente com sua esposa Luciane Sepúlveda, fez deste seu ambiente de trabalho a principal referência de empreendimento de sucesso do xadrez mineiro. 

Uma característica peculiar de sua personalidade aparece nitidamente nesta reportagem, que é a vontade de ajudar no progresso dos jogadores como um todo. Julio é muito claro ao apontar os rumos que devemos tomar para evoluir no jogo. Sempre prestativo com os enxadristas em formação - sejam alunos ou não -, vem dividindo também com outros técnicos sua experiência e métodos de treinamento. 

Com vocês... Julio Lapertosa Viana, uma das pessoas mais gabaritadas, sensatas e educadas que já convivi nesses dezessete anos de militância enxadrística. Realmente um orgulho para o xadrez de Minas Gerais e do Brasil.


Perfil

Julio Lapertosa VianaNome completo: Julio Lapertosa Viana.

Natural de: Belo Horizonte/MG.

Residência: Belo Horizonte/MG.

Data de nascimento: 30/12/1962.

Formação acadêmica: psicólogo.

Profissão: instrutor de xadrez.

Rating internacional: 2172 pontos.


Entrevista

Conte-nos como foi seu ingresso no mundo mágico das 64 casas.
Meu pai ensinou por volta dos dez anos, mas não me interessei. Com dezesseis anos sofri um acidente e fiquei três meses “de cama”. Usei o famoso livro “Xadrez Básico” para passar o tempo. Foi o suficiente para me apaixonar e nunca mais largar o nobre jogo. 

Em que momento sentiu que tinha afinidade para a arte de ensinar xadrez? A partir daí, que caminho trilhou para ser um dos principais treinadores do Brasil? 
Comecei a lecionar xadrez por acidente!! Trabalhava no ramo de restaurantes, aliás, cujo nome era Xeque-Mate, quando o MF Adriano Caldeira, ex-campeão mineiro, disse que havia recebido uma proposta irrecusável do Paulistano/SP. Precisava que o ajudasse no período de agosto a dezembro de 1996, somente para terminar o período escolar. Fiquei surpreso na primeira aula! Não conseguia parar de pensar em como era a melhor maneira de passar os segredos do jogo às crianças. O envolvimento foi tão violento que em menos de 1 ano tinha vendido os negócios paralelos (restaurantes) e me dedicava somente ao ensino do xadrez. Desde então, pesquiso técnicas de ensino e treinamento, faço cursos, utilizo na prática para ver o retorno, enfim busco uma forma de treinamento que facilite aos iniciantes. Trabalho que vem sendo reconhecido nacionalmente. 

A exemplo do Palácio dos Pioneiros, fundado na antiga União Soviética por Botvinnik, guardadas suas proporções podemos dizer sem sombra de dúvida que você criou em Minas uma Escola de Jovens Talentos, onde ano a ano novos alunos se destacam em nível nacional. Qual o segredo para um sucesso contínuo como esse? 
Na verdade seguindo a trilha do próprio Botvinnik. O Palácio dos Pioneiros é um modelo seguido em todo o mundo. Quando comecei a dar treinamento para interessados em competição, ensinava somente a parte técnica. Rapidamente descobri que apesar de acumular conhecimentos os pupilos não conseguiam aplicar corretamente na prática, cometendo erros que não condiziam com seu nível técnico. A Casa do Xadrez, em Belo Horizonte, segue as técnicas indicadas pelo grande Botvinnik. Basicamente busca tirar o conhecimento técnico do abstrato e passar para o concreto. 

Entrando mais especificamente no âmbito de treinamento, poderia nos indicar uma fórmula de como um enxadrista sairia da condição de "capivara" e atingiria o nível de mestre? Quais livros, softwares, tempo de estudo necessário, enfim, que roteiro o aluno deve cumprir? 
Hoje, sair de capivara a um nível de rating nacional por volta de 2000 é muito fácil. Na Internet aprende-se a regra em muitos sites, ou qualquer cartilha serviria a este propósito. A partir daí estudar um livro de aberturas, sem muitas linhas, somente para conhecer as idéias como o livro “O Espírito da Abertura”, Gérson Peres e Joel Cintra, escrito no estilo “idéias das aberturas”. Um livro de estratégia (“Mi Sistema”, do Nimzovich; “Estratégia Moderna do Xadrez”, do Pachman; “Estratégia”, de Darcy Lima e Julio Lapertosa) ou outro autor reconhecido. E um de final básico. De novo há várias boas opções: Pachman ou Averbach são excelentes autores, ou um mais moderno, o Seirawan. 
Mas o principal é bastante exercício tático e prática. Existem muitos livros e sites com exercícios, além de modernos softwares. Diria que a pessoa até alcançar um nível de mais ou menos 1800 de rating CBX deveria usar 80% de seu tempo nesta parte tática. Apesar de todo iniciante gostar de estudar abertura - e os mestres indicarem o contrário -, ao analisar suas partidas (abaixo de 2000 CBX) todas são decididas em erros táticos básicos. 
Para assimilar todo este material é necessário jogar o máximo possível, em torneios de preferência ou na Internet como opção. Tempos de jogo por volta de 20 a 30 minutos são aconselháveis. Partidas blitz, com menos 5 minutos, perdem muito o conteúdo e devem ser usadas somente como treino de rapidez (jogar sem cometer graves erros - ver tática básica rápido) e diversão. 
O ritmo para alcançar este nível depende do tempo disponível. Com três horas diárias de treino, um ano seria a média para alcançar 2000 de rating CBX. Para aumentar este nível começa um treinamento mais específico. É difícil explicar em poucas palavras, mas resumindo seria o seguinte: o objetivo da abertura é desenvolver as peças e controlar o centro, enfrentando a Siciliana jogamos 1.e4 c5 2.c4 chegando a uma formação de peões conhecida como Maroczy. De 2000 a 2200 pontos o jogador deve conhecer como manobrar nestas posições, que tipo de meio-jogo vai gerar, como avançar os peões próprios e restringir os bons avanços adversários. Uns dois esquemas de brancas e três de negras seriam suficientes. Como explicado no livro “Pawn Struture Chess”, de Andrew Soltis. 
Para passar de 2200 e alcançar o nível de mestre, deve-se aprofundar muito mais. Nesta mesma estrutura (Maroczy) saber se é melhor jogar o final de torres ou par de bispos contra bispo e cavalo; se é melhor manter o bispo de casas negras ou não. Em suma: ser um especialista em cada linha escolhida. O que até 2000 é só um conceito: Par de bispos em posição aberta é uma vantagem, se transforma em técnica prática. Quanto mais forte o jogador mais esquemas ele conhece podendo manobrar por várias posições com tranqüilidade. 
Não esqueço o que ocorreu durante um torneio em Brasília. Vários jogadores (com rating médio por volta de 2200 Fide) analisavam um final de torre + 2 peões x torre sem chegar a um acordo se ganhava ou empatava. O GM Darcy Lima aproximou-se da mesa, parou, deu uma olhada na posição por volta de 30s e disse: está empatado! E saiu. À noite perguntei como ele sabia. Em dez minutos ele me ensinou uma técnica simples que nenhum dos jogadores que analisavam (alguns até com mais de 2300) não conheciam. Enfim, os enxadristas devem acumular conhecimentos práticos. Saber que empata e quando jogar empatar! 

Sabemos que um bom professor e material adequado por si só não leva o jogador ao nível de mestre. Ele deve desenvolver qualidades pessoais que o distinguirá dos demais e o fortalecerá nos revezes freqüentes da atividade enxadrística. Quais requisitos você acredita que um aluno deva ter? 
Quem conhece o xadrez há mais tempo, sabe que ele é como a vida. Para vencer é necessária muita força de vontade, perseverança e objetivo. Muitos jogadores usam recursos extra-tabuleiro: bater peças, comer fazendo bastante barulho com a boca etc. Algumas vezes funciona, mas isso não pode ser considerado uma vitória. 
Recentemente vi um filme de um campeão amador de golf nos EUA que teve depressão no final da vida. Ele havia sido campeão alterando o peso da bola. Não conseguia conviver com um impostor - ele mesmo! Alguns valores mudam durante a vida. O valor da dignidade cresce com o passar dos anos. As vitórias de Ayrton Senna são imortais, dignas de um campeão. 
Meu pupilo Roberto Molina (2298 Fide) foi jogar com o MI Matsuura na Semifinal do Brasileiro Absoluto 2005 e estava passando muito mal. Matsuura perguntou se ele passava bem, se desejava interromper a partida para se medicar ou esperar melhorar. Esta sim é a atitude de um verdadeiro campeão. 

A feliz parceria com o GM Darcy Lima no campo da literatura enxadrística tem trazido à luz obras de grande relevância. Comente sobre os três livros já publicados e o que nós, ávidos leitores, podemos esperar para um futuro próximo. 
Todo o meu progresso técnico se deve ao Darcy. Não temos uma escola de ensino de xadrez no Brasil. É um verdadeiro "cada um por si". Nos últimos dez anos vêm se formando escolas regionais. O que tem elevado muito o nível dos jogadores. Em nossas conversas ele me mostrou técnicas de evolução. Nossos livros têm este objetivo. O livro "Estratégia", mais avançado, mostra as estratégias fundamentais a qualquer jogador moderno; o "Combinações", exercícios táticos tirados de partidas práticas para um nível intermediário e avançado; e o “ABC das Aberturas”, idéias básicas de aberturas e como formar o primeiro repertório. Muito do que está nesses livros nunca havia escutado, apesar do longo tempo que estudava. Agora com a Internet as coisas estão ficando mais fáceis. Estamos trabalhando há três anos em um novo projeto: um livro de como escolher planos a partir da avaliação de posições. 

Você é um dos mais ativos árbitros do estado, sendo, inclusive, árbitro nacional. O que tem a nos dizer desta faceta do xadrez? 
Não gosto muito de atuar como árbitro. Passei a atuar devido a falta de árbitros no estado. Mas agora que temos bons árbitros no quadro tenho atuado pouco. É muito bom aprofundar nas regras e ver um torneio pela perspectiva puramente técnica. Me deu muita "cancha" como jogador por aprender com experiências desagradáveis de outros. Tenho certeza de que você só pode ser um grande jogador atuando como um grande jogador. É exemplar a atitude dos GMs brasileiros no tabuleiro. Comportamento que pode ser seguido por qualquer um que aspire progressos no xadrez. Embora todos os leigos achem o inverso, arbitrar um torneio de mestres é muito mais fácil do que de iniciantes. Todos estão preocupados em ganhar sua partida jogando xadrez! Muito simples. 

Além de professor emérito você é um forte jogador, tendo obtido títulos expressivos como o de campeão brasileiro amador em 2003. Como consegue conciliar tão bem a arte de lecionar, escrever, arbitrar e jogar? 
O problema quanto a arbitrar e jogar é somente tempo disponível. Já dar aulas e jogar é muito complicado. Temos vários exemplos no Brasil de jogadores que ao começar a dar aulas passam a ter resultados ruins em torneios. No meu caso além da minha experiência tenho amigos e pupilos próximos que comprovam esta queda nos resultados. Rafael Sodré que com quatorze anos era muito forte, passou a me ajudar nas aulas e teve uma queda brutal no rendimento em eventos. Dar aulas a iniciantes auxilia em finais básicos e gravar conceitos básicos. Mas você passa a ter uma análise muito superficial para que o aluno possa acompanhar, isto prejudica bastante quando vai jogar em um nível mais alto. Para jogar o Brasileiro Amador eu parei de dar aulas para iniciantes um mês antes do torneio, o que permitiu um desempenho que surpreenderam a todos, inclusive a mim. Infelizmente no Brasil temos que nos desdobrar para conseguir um nível de vida digno. Portanto, escolha algo que goste para trabalhar, já que as 12 a 14 horas por dia serão fonte de grande prazer. 

Descreva os principais torneios de que participou e mostre a partida que mais lhe agrada, o seu "prêmio de beleza". 
O torneio inesquecível foi o Brasileiro Amador. Mas joguei uma Semifinal do Brasileiro e uma Final em 2004. Vários Campeonatos Mineiros, alguns Abertos do Brasil e uma vez os Jogos Regionais em São Paulo. Gufeld, que escreveu "Minha Monalisa no Xadrez", diz que não precisa ser o Kasparov para ter uma imortal. Cada um no seu nível têm sua partida inesquecível. Escuto muitas histórias a respeito dos Jogos do Interior de São Paulo, mas nunca havia participado. A convite de Gérson Peres participei dos Regionais em 2005 representando Paulínia. Uma excelente experiência para qualquer jogador. A equipe era o incansável Gérson (cobrindo notícias da Internet e jogando gripadíssimo), Danilo Epitácio, Érlon Braghini, os dois jovens e fortes jogadores; e Jair Domingues, um perigoso adversário, muito criativo (vários mestres já experimentaram) e de auxiliar técnico o jovem talento (tomou o lugar do Danilo como jovem) Evandro Barbosa, mais uma grata revelação do xadrez mineiro. Ficamos em segundo e joguei várias partidas interessantes. A que mais gostei foi: 

Giovane Bellotti - Julio Lapertosa [D94] 
Araras (6), 2005 
1.d4 Cf6 2.Cf3 d5 3.c4 g6 4.e3 Bg7 5.cxd5 Cxd5 6.Cc3 0–0 7.Bd3 c5 8.Cxd5 Dxd5 9.dxc5 Cc6 10.0–0 Dxc5 11.a3 Td8 12.Dc2 Db6 13.Tb1 Be6 14.b4 Tac8 15.De2 Ce5 16.Cxe5 Bxe5 17.Bb2 Bxb2 18.Txb2 Dd6 19.Td1 Dxd3 0–1
 

Considerações finais e agradecimentos. 
Fico muito feliz com o rumo que o xadrez no Brasil tomou. Apesar de ainda andar “empurrado” pelos apaixonados, ele vem há algum tempo recebendo um apoio em várias esferas. Muitos trabalhos escolares a nível municipal, estadual, federal e privado em ação. O nível técnico muito alto. Vários jogadores abaixo dos quatorze anos com excelente força. Agradeço a todos os amigos que fiz no xadrez e não posso deixar de ressaltar que devo tudo à minha amada esposa. Como enxadrista compreende o tempo que a atividade toma da família, como empresária fez da Casa do Xadrez um sucesso em todos os sentidos e, finalmente, como dirigente vem criando na FMX uma estrutura moderna e eficiente com mais de 150 cidades envolvidas.

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