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sábado, 18 de julho de 2015

A Verdade

A Verdade, por Malba Tahan,


Um dia a Verdade resolveu visitar o grande palácio do Sultão. Envolta num véu claro e transparente, foi ela bater à porta do rico palácio. Ao ver aquela formosa mulher, quase nua, o chefe dos guardas perguntou-lhe:

- Quem é você?

- Sou a Verdade! - respondeu ela, com voz firme. - Quero falar com o Sultão!

O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, apressou-se em levar a nova ao Primeiro Ministro do Sultão:

- Senhor - disse, inclinando-se humildemente, - uma mulher desconhecida, quase nua, quer falar com o Sultão.

- Como se chama?

- Chama-se a Verdade!

- A Verdade! - exclamou o Primeiro Ministro, cheio de espanto. - A Verdade quer penetrar neste palácio? Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Verdade aqui entrasse? A perdição, a desgraça nossa! Diga-lhe que uma mulher nua, despudorada, não entra aqui!

Voltou o chefe dos guardas com o recado e disse à Verdade:

- Não pode entrar, minha filha. A sua nudez iria ofender o nosso Sultão. Volte, pois, pelos caminhos de Alá!

A Verdade ficou muito triste, e afastou-se lentamente do grande palácio do magnânimo sultão, cujas portas se tinham fechado à transparente formosura!

Mas... a Verdade era obstinada e continuou a alimentar o desejo de visitar o grande palácio do Sultão... Cobriu o corpo com um agasalho de couro grosseiro como os que usam os pastores e foi novamente bater à porta do suntuoso palácio.

Ao ver aquela formosa mulher grosseiramente vestida com peles, o chefe dos guardas perguntou-lhe:

- Quem é você?

- Sou a Acusação! - respondeu ela, em tom severo. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o Sultão.

O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu a entender-se como o Primeiro Ministro.

- Senhor - disse, inclinando-se humilde, - uma mulher desconhecida, o corpo envolto em grosseiras peles, deseja falar com o Sultão.

- Como se chama?

- A Acusação!

- A Acusação? - repetiu o Primeiro Ministro, aterrorizado. - A Acusação quer entrar neste palácio? Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Acusação aqui entrasse! A perdição, a nossa desgraça! Diga-lhe que não pode entrar! Diga-lhe que uma mulher, com as vestes grosseiras de um pastor, não pode falar com o Sultão!

Voltou o chefe dos guardas com a proibição e disse à Verdade:

- Não pode entrar, minha filha. Com essas vestes grosseiras, próprias de um beduíno rude e pobre, não poderá falar ao nosso amo e senhor, o Sultão. Volte, pois, em paz, pelos caminhos de Alá!

A Verdade ficou ainda mais triste e afastou-se vagarosamente do grande palácio do poderoso Sultão.

Mas... a Verdade não desistiu e vestiu-se com riquíssimas vestes, cobriu-se com joias e adornos, envolveu o rosto em um manto diáfano de seda e foi bater à porta do palácio em que vivia o glorioso senhor dos Árabes, o Sultão.

Para saber mais, clique sobre Mais informações, abaixo.



Ao ver aquela encantadora mulher, linda como a lua cheia, o chefe dos guardas perguntou-lhe:

- Quem é você?

- Sou a Fábula - respondeu ela, em tom meigo e mavioso. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o generoso Sultão, Emir dos Árabes!

O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu, radiante, a comunicar a boa nova ao Primeiro Ministro:

- Senhor, - disse, inclinando-se, humildemente - uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa, solicita audiência de nosso amo e senhor, o Sultão.

- Como se chama?

- Chama-se a Fábula!

- A Fábula! - exclamou o Primeiro Ministro, cheio de alegria. - A Fábula quer entrar neste palácio! Alá seja louvado! Que entre! Bem-vinda seja a encantadora Fábula! Cem formosas escravas irão recebê-la com flores e perfumes! Quero que a Fábula tenha, neste palácio, o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!

E abertas de par em par as portas do grande palácio, a formosa peregrina entrou.

E foi assim, sob o aspecto de Fábula, que a Verdade conseguiu apresentar-se ao poderoso Sultão!

(Malba Tahan)

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