Capitulo 5 69 anos de Jorge Purgly
Capitulo 5 - 69 Anos de Jorge Purgly
Sessenta e nove. Olhando o número no papel, ele tem uma simetria curiosa. O 6 e o 9, como o Yin e Yang, girando em equilíbrio. É uma idade que impõe respeito, um degrau antes da grande porta dos setenta, mas que ainda guarda um sorriso maroto no canto da boca.
Nasci em agosto de 1956. Um ano explosivo para o mundo e decisivo para o meu sangue. Enquanto eu dava meus primeiros choros no berço, do outro lado do oceano, a terra dos meus pais, a Hungria, preparava-se para a Revolução de Outubro. O mundo fervilhava. Juscelino Kubitschek assumia o Brasil prometendo "50 anos em 5". Eu sou filho dessa pressa, dessa transformação, dessa tensão entre o velho mundo que ruía e o novo que se erguia.
Chegar aos 69 anos é uma vitória silenciosa da engenharia biológica.
O chassi já tem alguns amassados. A fibromialgia da Tininha nos ensinou a viver um dia de cada vez, e os meus próprios joelhos às vezes protestam contra o peso do saco de presentes do Papai Noel. O reconhecimento facial dos bancos não entende minha barba branca, e o mundo digital às vezes parece correr mais rápido do que minhas pernas podem acompanhar.
Mas a mente? Ah, a mente aos 69 é um arquivo organizado (ou quase).
Sinto que agora as peças se encaixam. O engenheiro da Siemens que calculava riscos agora calcula emoções. O jovem que buscava respostas na ciência agora aceita os mistérios da espiritualidade. O homem que queria conquistar o mundo agora se contenta em conquistar sorrisos em Indaial.
Aos 69, a gente perde a paciência para o supérfluo e ganha uma tolerância infinita para o essencial.
Não me preocupo mais se meu carro é do ano ou se meu celular é o último modelo. Preocupo-me se a Tininha dormiu bem. Preocupo-me se a roupa de Papai Noel está limpa e cheirosa para as crianças. Preocupo-me em deixar estas crônicas escritas, para que meus netos saibam que o avô deles viveu, amou e foi curioso até o fim.
Sou um homem de 1956 vivendo em 2025. Vi o Telex morrer e a Inteligência Artificial nascer. Vi a Hungria sofrer e o Brasil crescer. E aqui estou, com 69 voltas ao redor do sol completadas, pronto para a septuagésima.
Dizem que o vinho melhora com o tempo. Eu prefiro pensar que somos como as minhas suculentas: quanto mais o tempo passa, mais resistentes e enraizados nos tornamos, capazes de florescer mesmo com pouca água, guardando a energia vital dentro de nós.

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