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Mostrando postagens com o rótulo Saga Purgly

Saga Purgly Postagem 17 (Parte 3) O Artesão da Noite e a Vida na Garagem

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  Saga Purgly Postagem 17 (Parte 3): O Artesão da Noite e a Vida na Garagem Vovó Dora, niver de 98 anos em 27 fev 2017 Subtítulo: Alugamos a casa, fomos para a garagem e meu pai trocou o tear pela madeira, vivendo um fuso horário só dele. Sem a fábrica, a renda secou. A solução foi drástica: alugamos a casa confortável onde morávamos para ter uma renda extra e nos mudamos para a garagem. A história se repetia. Anos antes, eles começaram numa garagem na Bela Vista. Agora, voltavam para uma garagem na Vila Galvão. O ciclo se fechava, mas a vida continuava. O Novo Ofício: A Madeira Johann Purgly não sabia ficar parado. Se o tecido acabou, ele inventaria outra coisa. Nasceu ali o Johann Artesão. Ele começou a desenvolver uma nova profissão: artesanato em madeira. O Homem da Noite Nessa fase, a rotina da casa virou de ponta-cabeça. O biorritmo do meu pai sempre foi noturno, e sem o horário da fábrica, ele abraçou a madrugada. A criatividade dele explodia às 2 horas da manhã. Enquanto a ...

Saga Purgly Postagem 17 (Parte 2) 1964 O Espião de Santa Catarina e o Fim do Sonho

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  Saga Purgly Postagem 17 (Parte 2): 1964: O Espião de Santa Catarina e o Fim do Sonho Subtítulo: Como a ingenuidade de um gênio e a má-fé de um visitante destruíram a Fiação Johann Purgly. 1964 foi um ano duro para o Brasil, mas para a família Purgly, o golpe veio de outro lugar. A nossa fábrica ia bem. Os tecidos Jacquard, os fios de ouro e prata, as inovações do meu pai eram exclusivos. Até que um homem bateu à nossa porta. A Visita do Lobo Ele veio de Santa Catarina. Apresentou-se como um empresário interessado em parcerias, cheio de sorrisos e promessas de crescimento e sociedade. Meu pai, Johann, tinha o coração puro dos inventores. Ele não viu um concorrente; viu um admirador. Encantado com o interesse, meu pai abriu tudo. Levou o homem para dentro da fábrica. Explicou a tecnologia dos teares Texmatic. Mostrou os segredos dos cartões perfurados. Deu amostras dos novos tecidos e fios fantasia. Entregou, de bandeja, a alma do seu negócio. O homem foi embora com a pasta cheia e...

Saga Purgly Postagem 17 (Parte 1) O "Pão de Bunda" e a Cozinha da Dona Dora

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  Saga Purgly Postagem 17 (Parte 1): O "Pão de Bunda" e a Cozinha da Dona Dora Subtítulo: Entre rabanadas salgadas e risadas infantis, o sabor de uma época feliz. Antes de falar das tempestades que viriam, preciso falar do sabor da nossa casa. Minha mãe, Theodora, minha querida mamãe, chamada por todos por Dóra-néni ou simplesmente Dora, fazia mágica na cozinha. E o prato campeão, aquele que nos fazia rir logo de manhã, era o Bundáskenyér. Para quem é de fora, o Bundáskenyér é a versão húngara da rabanada (ou French Toast), mas salgada. Pão amanhecido, passado no leite, no ovo batido e frito na banha ou óleo. Mas para mim, um menino brasileiro crescendo na Vila Galvão, o nome húngaro soava hilário. — Mãe, tem "pão de bunda" hoje? — eu perguntava, rindo da cacofonia. Era a nossa piada interna. O "pão de bunda" era o conforto, era o cheiro de fritura gostosa que se misturava ao pó de algodão dos teares. A Liturgia da Cozinha Minha mãe não tinha empregada. E...

Saga Purgly Postagem 16 (parte 3)

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  Jorge, essa dualidade é emocionante. De um lado, o barulho industrial que feriu seus ouvidos; do outro, a música suave que acalentava sua alma. Isso mostra que a casa não era apenas uma fábrica de tecidos, mas também uma "fábrica de afeto". O gravador Geloso é um ícone! Aquele carretel pequeno, o microfone de baquelite... é a semente do seu amor pela tecnologia e áudio (que vamos ver mais tarde nos posts sobre jingles e locução). Como estamos tratando do ambiente da casa/fábrica, vou classificar isso como Postagem 16 (Parte 3) , para fechar o ciclo do "cenário" antes de entrarmos no "café da manhã" na Postagem 17. Aqui está o rascunho: Saga Purgly Postagem 16 (Parte 3): O Silêncio Forçado e a Gaita de Fole (Harmônica) Subtítulo: O preço que meus ouvidos pagaram pelo barulho dos teares e a doce recompensa das noites musicais com o gravador Geloso. Toda moeda tem duas faces. Se crescer dentro de uma fábrica me deu segurança e uma infância mágica, também m...

Saga Purgly Postagem 16 (Parte 2): Flash-forward A Roda da Fortuna

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  Jorge, o termo técnico literário e cinematográfico para esse "avanço no tempo" é Flash-forward (em inglês) ou Prolepse (em português). É quando a narrativa salta para o futuro para mostrar uma consequência ou um contraste, quebrando a ordem cronológica. Fazer esse movimento agora, logo após descrever a prosperidade da fábrica na Parte 1, é um recurso narrativo poderosíssimo e corajoso. Cria um contraste brutal entre a "construção do império" do seu pai e a realidade espiritual e desapegada que você vive hoje. Mostra que a Roda da Fortuna gira, mas o caráter permanece. Aqui está a Postagem 16 (Parte 2) , escrita com a dignidade e a crueza que você pediu. Xanita, Phillipe, mamãe Dora, Tininha, Jorge, Jorge Luis e Daniel há 40 anos. Saga Purgly Postagem 16 (Parte 2): Flash-forward: A Roda da Fortuna Subtítulo: Um salto no tempo. Da fábrica próspera à realidade de hoje. O que o dinheiro comprou e o que a vida ensinou. Na literatura, existe uma técnica chamada Flash-...

Saga Purgly Postagem 16 O Menino, o Tear e a Vila Galvão

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  Saga Purgly Postagem 16: O Menino, o Tear e a Vila Galvão Subtítulo: Minha infância ao som das máquinas, o pó de algodão no ar e a liberdade das ruas de terra. Se 1956 foi o ano em que nasci, os anos seguintes foram o tempo em que o "brasileiro" Jorge começou a descobrir o mundo. E o meu mundo tinha um endereço certo: Vila Galvão, em Guarulhos . Naquela época, Guarulhos não era a metrópole de concreto de hoje. Era uma cidade em construção, com cheiro de terra molhada e mato. A Vila Galvão era um bairro tranquilo, onde todos se conheciam, mas a nossa casa tinha uma particularidade: ela pulsava. A Casa-Fábrica Diferente dos meus amigos, que tinham casas silenciosas, eu cresci dentro da revolução industrial do meu pai. A Fiação Johann Purgly Tecelagem Dora não ficava num distrito industrial distante; ela ficava no nosso quintal. Minha infância teve uma trilha sonora constante: o tla-tla-tla rítmico e incessante dos teares Texmatic e das máquinas Jacquard batendo os cartões per...