SP 117 - Livro Saga Purgly - Metadados de 02 02 2026
SP 117 - CRÔNICAS BIOGRÁFICAS: SAGA PURGLY
Dedico esta obra à memória sagrada de meus pais, Johann e Dora Purgly. Eles cruzaram oceanos e enfrentaram o desconhecido, trazendo na bagagem pouco mais que a coragem e um tear desmontado. A eles, que me ensinaram que a dignidade se tece fio a fio, com trabalho árduo e honra, minha eterna gratidão. Eu sou a continuidade do sonho deles.
À minha esposa e companheira de jornada, Catarina Maria (minha Tininha Mandú). Você é o solo fértil onde minhas raízes encontraram estabilidade e o roseiral que perfuma meus dias. Obrigado por segurar minha mão em todas as estações, das tempestades às calmarias.
Aos meus filhos, Jorge Luis e Daniel Luis. Vocês são a prova viva de que a saga continua. Que estas páginas sirvam como um mapa de onde viemos, para que vocês nunca se percam no caminho para onde vão.
📚 VOLUME 1: RAÍZES E CHEGADA
CAPÍTULO 1
Meus Pais Recém-Casados: O Amor em Tempos de Reconstrução (Baseado na crônica de 11/12/2025)
A Travessia e a Chegada. O embarque no navio foi o corte final do cordão umbilical. Nas malas, poucas roupas, a criança de cerca de 5 anos, Madalena, e um tear Texmatic desmontado — a única esperança de Johann de reconstruir a dignidade profissional em terra estrangeira.
Dora trazia algo mais leve, porém mais poderoso: a receita do Beigli e a determinação de que, não importava onde estivessem, o Natal teria cheiro de nozes e papoula.
A chegada ao Rio de Janeiro e, posteriormente, a São Paulo, não foi o conto de fadas tropical que os folhetos de imigração prometiam. Foi dura. O Brasil de 1948 vibrava com uma energia caótica que assustava e fascinava.
Para Johann, a barreira da língua era um muro alto. Ele, que dominava a técnica dos teares com a precisão de um relojoeiro, via-se mudo diante de operários que falavam uma língua cantada e rápida. Mas o amor de Dora era a argamassa que impedia que tudo desmoronasse.
Eles se instalaram inicialmente na Rua João Julião. Ali, naquele pequeno espaço, nasceu a Tecelagem Dora. Não era uma fábrica; era a sala de casa. O barulho do tear batendo dia e noite tornou-se a trilha sonora da família. Johann tecia, Dora fazia o acabamento e vendia.
Havia uma simbiose perfeita:
Ele era a técnica, a engenharia, o "como fazer".
Ela era a alma, o comércio, o "para quem vender".
Dora pegava as peças de tecido debaixo do braço e ia para a rua, com seu português ainda claudicante, mas com um sorriso e uma elegância que não precisavam de tradução. Ela vendia não apenas tecido; vendia a história de uma reconstrução.
Lembro-me (pelas histórias contadas, pois eu ainda aguardava no "saguão" do plano espiritual) que eles trabalhavam com uma alegria teimosa. Não a alegria eufórica das festas, mas a alegria serena de quem sobreviveu ao naufrágio e encontrou terra firme.
Eles eram sobreviventes. E sobreviventes sabem que cada dia de trabalho é um luxo, não um fardo.
O amor deles nesses primeiros anos de Brasil foi forjado no aço do tear e na maciez do fio. Foi um amor de cumplicidade absoluta. Quando Johann desanimava com a burocracia brasileira ou com a saudade da Hungria, Dora era o farol. Quando Dora se sentia exausta de carregar fardos, Johann era o porto.
Eles eram, na essência, uma única entidade operando em dois corpos: a Família Purgly renascendo nos trópicos.
CAPÍTULO 2
Vila Rosália e o Ar do Lago — O Solo de 1956 (Baseado na crônica SL 16 de 19/01/2026)
Enquanto o ano de 1956 ficava marcado na história mundial pelo rugido dos tanques em Budapeste, na história da família Purgly ele representava o silêncio de um novo recomeço e o som do primeiro choro de uma nova geração. Foi o ano em que deixamos o ritmo acelerado da capital para fincar raízes em Guarulhos.
A Rua Dom Pedro II e a Vila Rosália Nosso destino foi a Rua Dom Pedro II, na Vila Rosália — uma região que, formalmente vinculada à Vila Galvão, estava em pleno processo de formação. Para Johann e Dora, aquela mudança era a consolidação de oito anos de esforço no Brasil.
A casa na Rua Dom Pedro II (hoje a pacata Rua Pirapozinho) não era apenas um novo teto; era o território onde a semente trazida de Battonya finalmente teria espaço para florescer com liberdade.
O horizonte do Lago dos Patos Viver a apenas um quilômetro do Lago dos Patos moldou a atmosfera daquela época. Na metade da década de 50, o Lago não era apenas um ponto turístico, mas o pulmão e o coração social de uma Guarulhos que ainda guardava o frescor do interior. O ar que vinha do lago trazia uma promessa de paz que a garagem da Dona Serena e a oficina da João Julião não podiam oferecer.
O Ano de Jorge 1956 não foi apenas o ano da mudança; foi o ano em que eu cheguei ao mundo. Enquanto meus pais organizavam os móveis e Johann planejava seus novos passos profissionais, eu nascia para ser o primeiro Purgly plenamente brasileiro.
Herdeiro de uma linhagem de Battonya, mas com os pés destinados a caminhar pelas ruas de Guarulhos. Aquela casa na Vila Rosália tornou-se o meu primeiro universo, o palco onde o "olhar do avô" começaria a me ensinar a ver além do óbvio.
CAPÍTULO 3
Dora, Madalena e Jorge: A Dinâmica da Família Purgly (Baseado na crônica de 11/05/2012)
A memória nos prega peças, mas as fotografias são as âncoras da verdade. Olhando para os registros da Tecelagem Dora, vejo a trindade que se formou naquela casa: Johann, o patriarca silencioso ao fundo; Dora, a força motriz; e nós, as crianças.
Madalena, minha irmã, já era uma moça quando eu comecei a entender o mundo. A diferença de idade criou entre nós uma dinâmica peculiar. Ela não era apenas a irmã mais velha; era uma espécie de segunda mãe, uma tradutora do mundo adulto para o meu mundo de criança.
Lembro-me da fábrica em pleno vapor. O barulho rítmico dos teares era a música de fundo da minha infância. Para uma criança, aquilo era um parque de diversões perigoso e fascinante. As lançadeiras indo e vindo, os fios coloridos criando padrões mágicos... Eu observava meu pai, Johann, curvado sobre as máquinas, com aquela concentração absoluta de quem dialoga com o mecanismo.
E havia a mamãe Dora. A onipresente Dora. Ela gerenciava a casa, a fábrica, a educação dos filhos e ainda encontrava tempo para manter viva a chama da cultura húngara dentro de nós. Foi ela quem insistiu que não perdêssemos a língua, que conhecêssemos a história dos nossos antepassados.
A dinâmica entre nós três — Dora, Madalena e Jorge — foi moldada por essa mistura de trabalho árduo e afeto profundo. Crescemos vendo que nada caía do céu; tudo era construído, fio a fio, trama a trama. Essa foi a maior herança que a Tecelagem Dora nos deixou: não os tecidos, mas a ética de que a vida se constrói com as próprias mãos.
CAPÍTULO 4
Supermarionation: Os Fios Visíveis da Magia (Baseado na crônica Saga Purgly Postagem 31 - Parte 1 de 16/01/2026)
Se a tecelagem era a realidade mecânica da minha casa, a televisão era a janela para o impossível. E nada definiu mais a minha imaginação na década de 60 do que a palavra mágica: Supermarionation.
Era a era dos Thunderbirds. Para uma criança de hoje, acostumada com CGI perfeito, pode ser difícil entender, mas para o Jorge menino, aquelas marionetes de cabeças grandes e movimentos um tanto rígidos eram a epítome da tecnologia.
Havia algo de fascinante na técnica de Gerry Anderson. Nós víamos os fios. Sabíamos que eram bonecos. Mas a narrativa era tão poderosa, os veículos (como o Thunderbird 2, o gigante verde transportador) eram tão incríveis, que o cérebro ignorava os fios e aceitava a realidade.
Hoje, olhando em retrospecto para a Saga Purgly, vejo uma conexão curiosa. Assim como nos Thunderbirds, onde uma família (os Tracy) operava uma organização de Resgate Internacional, nós, os Purgly, operávamos nossa pequena "indústria" de resgate da própria dignidade através do trabalho.
Scott, Virgil, Alan, Gordon e John Tracy tinham o pai, Jeff Tracy, comandando a base. Eu tinha Johann. A diferença é que a nossa "Ilha Tracy" era em Guarulhos. A Supermarionation me ensinou que, mesmo quando os fios que nos controlam são visíveis (sejam eles o destino, a economia ou a história), a aventura ainda vale a pena.
CAPÍTULO 5
Fronteiras do Tempo: A Alquimia de Dora (Baseado na crônica FT 07 de 20/01/2026)
Dizem que o olfato é o sentido mais próximo da memória. Eu concordo. Se fechar os olhos agora, não preciso de uma máquina do tempo para voltar a 1960; preciso apenas evocar o cheiro da cozinha de Dora Purgly.
Minha mãe não cozinhava; ela praticava uma forma antiga de termodinâmica do afeto. A cozinha era seu laboratório e seu palco. Ali, a "química" húngara acontecia.
Não era apenas comida. Era identidade. O cheiro da páprica refogando na cebola (a base sagrada de tudo) permeava as paredes da casa e impregnava nossas roupas. Era o nosso perfume de família. Mas o ápice, a verdadeira Magnum Opus da alquimia de Dora, era o Beigli.
O rocambole de Natal, recheado com nozes ou papoula, não era feito de farinha e açúcar. Era feito de paciência e tradição. Eu observava o ritual: a massa sendo esticada até ficar fina como um véu, o recheio sendo espalhado com precisão matemática.
Quando o forno ligava, a casa se transformava. O aroma adocicado e tostado das nozes criava uma barreira protetora contra o mundo lá fora. Podia chover, podia haver crise econômica, mas enquanto houvesse cheiro de Beigli no forno, nós éramos reis em nosso castelo.
CAPÍTULO 6
Meus Pets e a Energia Fotovoltaica na Década de 80 (Baseado na crônica de 27/01/2026)
Damos um salto no tempo. O menino que assistia Thunderbirds cresceu e tornou-se engenheiro. Estamos na década de 80, uma época de transição tecnológica e pessoal.
Minha vida profissional estava imersa na vanguarda da energia solar. Trabalhando na Siemens (Icotron) e depois mergulhando no universo da energia fotovoltaica, eu lidava com o futuro. Placas de silício, conversão de luz em eletricidade, a promessa de uma energia limpa.
Mas, ao chegar em casa, a "tecnologia" era outra: a biológica.
Foi nessa época que a relação com os animais de estimação se aprofundou. Minha primeira pet marcante, Natalia, e depois a sucessão de companheiros que povoaram o roseiral da Tininha. Havia um contraste delicioso entre o meu dia a dia:
Durante o expediente: "Eficiência da célula solar", "Módulos monocristalinos", "Curvas I-V".
Ao chegar em casa: Rabos abanando, latidos desordenados, a simplicidade bruta e amorosa.
A energia fotovoltaica captava a luz do sol para gerar eletricidade. Meus pets captavam a minha energia e a convertiam em alegria instantânea. Eram dois tipos de "painéis solares": um feito de vidro e metal, que pagava as contas; outro feito de pelo e lealdade, que recarregava a alma.
CAPÍTULO 7
National Kid: O Herói que Voava com os Braços Abertos (Baseado na crônica de 26/11/2025)
Se os Thunderbirds me ensinaram sobre máquinas, National Kid me ensinou sobre heroísmo. Abertura inesquecível: aquele voo com os braços abertos, a capa tremulando e a música marcial que qualquer criança da minha geração reconhece nos primeiros acordes.
Ele não era americano como o Super-Homem. Ele era japonês, o que, para um menino vivendo em uma colônia de imigrantes, trazia uma estranha familiaridade. Ele lutava contra os Incas Venusianos, contra os Seres Abissais...
Nós, crianças da Rua Dom Pedro II, não apenas assistíamos; nós vivíamos o National Kid. Quantas vezes não corri pelo quintal com uma toalha amarrada no pescoço, convicto de que, se eu corresse rápido o suficiente, meus pés deixariam o chão? A gravidade sempre vencia, mas a imaginação saía ilesa.
CAPÍTULO 8
Perdidos no Espaço e Túnel do Tempo: A Escola do Futuro (Baseado na crônica de 27/11/2025)
A televisão era nossa internet. E nas tardes da minha juventude, ela me transportava para dois lugares: o espaço profundo e o passado histórico.
Perdidos no Espaço (Lost in Space) era um drama familiar disfarçado de ficção científica. Mas quem roubava a cena não era o patriarca John ou o piloto Don West; era o Dr. Smith e o Robô B-9.
"Perigo, Will Robinson! Perigo!" — aquela frase metálica ecoava na sala. O Robô era a tecnologia protetora, lógica, forte. O Dr. Smith era a falha humana. Talvez ali eu tenha começado a entender que a tecnologia (o Robô) é neutra; é o humano ao lado dela que define o rumo da história.
E então, havia O Túnel do Tempo (The Time Tunnel). Tony Newman e Doug Phillips caindo naquele vórtice psicodélico listrado de preto e branco.
Essas séries plantaram em mim sementes que germinariam anos depois na minha carreira de engenharia e na minha curiosidade pela história. Eu queria construir o Robô. Eu queria entender o Túnel. De certa forma, com a genealogia e a Saga Purgly, hoje eu finalmente construí meu próprio Túnel do Tempo.
CAPÍTULO 9
Como e Por Que Aprendi Esperanto: A Busca pela Língua Universal (Baseado na crônica de 25/01/2026)
Em meio a tantos idiomas que cercavam minha vida — o húngaro, o português, o inglês técnico — eu decidi aprender uma língua que não pertencia a nenhuma nação, mas a todas: o Esperanto.
Por que? Talvez fosse o idealismo da juventude. L.L. Zamenhof, o criador do Esperanto, sonhava com um mundo onde as barreiras linguísticas não gerassem conflitos.
Lembro-me do poema La Vojo (O Caminho) de Zamenhof:
Tra densa mallumo briletas la celo, Al kiu kuraĝe ni iras. (Através da densa escuridão brilha o objetivo, Para o qual corajosamente caminhamos.)
Esses versos se tornaram um mantra. Estudar Esperanto me conectou a uma comunidade global de sonhadores. O aprendizado dele moldou minha visão de mundo: a de que é possível construir pontes onde só existem muros, desde que haja vontade e um vocabulário comum.
CAPÍTULO 10
O Amor na Palma da Sua Mão: A Linha do Destino (Baseado na crônica de 30/05/2013)
Houve um tempo em que busquei respostas não na engenharia, mas na cartografia das mãos. O blog Biometrio nasceu dessa busca. A quiromancia, para mim, nunca foi adivinhação vulgar; foi um estudo de padrões, uma tentativa de decodificar o software da alma impresso no hardware do corpo.
Entre todas as linhas, uma sempre me fascinou: a Linha do Destino, ou, como os hindus a chamam, Purva Punya (o mérito de vidas passadas).
Ela sobe verticalmente em direção ao dedo médio. Quando ela é forte e clara, dizem que a pessoa traz uma "poupança espiritual" de outras existências. Aprendi que a mão muda. As linhas tênues podem se aprofundar com a vontade. O destino (Karma) e o livre-arbítrio (Dharma) dançam na palma da nossa mão.
CAPÍTULO 11
O Colapso Espiritual: Lições de Cavalo de Troia (Baseado na crônica de 28/01/2026)
Recentemente, mergulhei profundamente na obra de J.J. Benítez, especificamente na série Cavalo de Troia. Uma ideia me marcou profundamente: o "Colapso".
Muitas vezes, olhamos para as crises — financeiras, de saúde ou emocionais — como punições ou azares. Benítez nos sugere outra visão: o colapso é necessário. É a demolição controlada do velho "Soma" para que o Espírito possa respirar.
Em minha própria vida, enfrentei meus colapsos. A saída de grandes empresas, as mudanças de cidade, os desafios legais recentes. Em cada um desses momentos, senti a estrutura tremer. Mas foi justamente nas ruínas das minhas certezas que encontrei as verdades mais sólidas.
O colapso espiritual não é o fim; é o início da verdadeira construção.
CAPÍTULO 12
Sou Papai Noel 24 Horas por Dia (Baseado na crônica de 08/12/2025)
"Você é Papai Noel de verdade?" — a criança me pergunta no shopping, puxando a manga da minha roupa vermelha.
A resposta que dou não é ensaiada. É a verdade da minha alma: "Sim, sou".
Não sou ator. Não visto uma fantasia. Eu visto uma missão. Ser Papai Noel não é algo que faço em dezembro; é quem eu sou o ano todo.
Em setembro de 2024, recebi uma Moção de Aplausos da Câmara Municipal de Indaial. Foi um momento de reconhecimento público, mas o verdadeiro prêmio acontece no anonimato. Quando, em pleno março ou julho, andando pelo supermercado de roupa comum, uma criança me olha e sussurra para a mãe: "Olha, é ele!".
Do menino imigrante que observava os teares em 1956, passando pelo engenheiro da Siemens, até chegar ao Papai Noel de Indaial, a linha é contínua. Antes, eu levava energia solar (luz física) para as casas. Hoje, levo a luz da esperança (luz emocional).
⚙️ VOLUME 2: ENGENHO, HERANÇA E CONEXÕES
(Do Capítulo 13 ao 18)
CAPÍTULO 13
A História da Hungria: O Peso de 1956 (Baseado nas crônicas 50 e 51)
Embora eu tenha nascido no Brasil no ano exato da Revolução Húngara (1956), o eco dos tanques soviéticos em Budapeste reverberou nas paredes da nossa casa em Guarulhos por décadas.
A Hungria é um país de fronteiras fluidas e história densa. Meus pais, Johann e Dora, deixaram a terra natal em 1948, fugindo do comunismo. Mas 1956 foi o golpe de misericórdia.
Entender 1956 não foi apenas uma aula de história; foi entender o silêncio do meu pai em certas noites e a determinação ferrenha da minha mãe. Eles sabiam que a liberdade é frágil. Hoje, ao escrever a Saga Purgly, vejo que sou o guardião dessa memória.
CAPÍTULO 14
Invenções Húngaras: O DNA da Criatividade (Baseado nas postagens 33 e 34)
Dizem que se um húngaro entra atrás de você numa porta giratória, ele sai à frente. Essa piada reflete a engenhosidade de um povo que teve de sobreviver usando o cérebro.
Como engenheiro, sempre tive um orgulho silencioso da lista de compatriotas que mudaram o mundo:
O fósforo de segurança (János Irinyi);
A caneta esferográfica (László Bíró);
O cubo mágico (Ernő Rubik);
A vitamina C (Albert Szent-Györgyi);
A bomba de hidrogénio (Edward Teller).
Eu olhava para os componentes eletrónicos na Siemens/Icotron e pensava: "Há um pouco de pensamento magiar aqui". Herdei essa inquietação mental, essa vontade de entender como as coisas funcionam.
CAPÍTULO 15
O Boticário e Miguel Krigsner: Conexões de Destino (Baseado nas crônicas 120 a 124)
A história de Miguel Gellert Krigsner, fundador de O Boticário, toca a minha em pontos nevrálgicos. O sobrenome "Gellert" ressoa.
Krigsner veio da Bolívia, mas suas raízes, como as minhas, estão na Europa Central judaica e húngara. Quando estudo a biografia dele, vejo o arquétipo do "Alquimista Moderno".
Há um paralelo fascinante: ambos lidamos com a "magia". Ele, engarrafando aromas que evocam sentimentos; eu, vestindo o manto vermelho que evoca a esperança.
CAPÍTULO 16
Da Maxitec para a KWU: A Engenharia da Mudança (Baseado nas crônicas 25 e 26)
A vida de um engenheiro não é feita apenas de cálculos, mas de transições de estado.
Na Maxitec, eu vivia o mundo da precisão, do controlo numérico. Mas a chamada da Siemens KWU (Kraftwerk Union) trouxe uma nova dimensão: a energia nuclear. Entrar na KWU foi como entrar numa catedral da tecnologia. Não estávamos a falar apenas de máquinas; estávamos a falar de megawatts, de infraestruturas que sustentam países inteiros.
Foi nessa época que a minha visão sistémica se aprimorou. Percebi que uma central elétrica não é muito diferente de um corpo humano ou de uma árvore genealógica: é um sistema complexo onde o fluxo precisa de circular sem impedimentos.
CAPÍTULO 17
Icotron e a Alma dos Componentes (Baseado nas crônicas 42, 44 e 45)
Antes da KWU, houve a Icotron. Fundada em 1954, ela não era apenas uma fábrica de componentes em Gravataí; era uma lenda na indústria eletrónica brasileira.
Para quem olha de fora, um condensador eletrolítico é apenas uma peça fria. Para mim, era a materialização do engenho humano. Havia uma "alma" naquelas peças. Cada componente tinha uma função vital: armazenar energia, proteger contra surtos.
Trabalhar na Icotron ensinou-me sobre a importância das "pequenas coisas". Muitas vezes, não são os grandes eventos que nos travam, mas as pequenas mágoas acumuladas, os "condensadores" emocionais que vazam.
CAPÍTULO 18
Biometrio: O Algoritmo e a Louça Limpa (Baseado na crônica 90)
E então nasceu o Biometrio. O nome soa técnico, mas o propósito era profundamente humano. O título de uma das minhas crônicas favoritas, "O Algoritmo e a Louça Limpa", resume a filosofia.
Vivemos numa era obcecada por algoritmos. Queremos "hackear" a vida. Mas, no final do dia, a iluminação espiritual muitas vezes encontra-se na tarefa mais mundana: lavar a louça.
Enquanto lavo um prato, o algoritmo do Google não importa. O que importa é o "aqui e agora". O Biometrio foi a minha terapia antes de eu ser terapeuta.
🔮 VOLUME 3: O PRESENTE E O HORIZONTE
(Do Capítulo 19 ao 23)
CAPÍTULO 19
O Roseiral da Tininha: A Estabilidade do Afeto (Baseado na crônica 112)
Se Johann e Dora foram as raízes húngaras, Catarina Maria — a minha Tininha — é o solo fértil onde me desenvolvi como homem e pai.
Em Indaial, o "Roseiral da Tininha" não é apenas um jardim; é uma metáfora do nosso casamento. Rosas exigem cuidado constante e paciência para aguardar a floração. Assim foi a nossa vida. Tininha trouxe uma qualidade que muitas vezes me faltou: o "pé no chão".
Hoje, vê-la cuidar das rosas ou gerenciar a nossa casa é ver a manifestação prática do amor. O roseiral é bonito porque é real, tem espinhos e tem perfume, exatamente como a vida a dois.
CAPÍTULO 20
Jorge Luís, Daniel: A Continuidade do Nome (Baseado nas crônicas 107 a 111)
Olho para os meus filhos, Jorge Luís e Daniel, e vejo o Purgly transformado. Eles não carregam o sotaque pesado ou as cicatrizes da guerra de 1956, mas carregam o DNA da honestidade e do trabalho.
Quando eram pequenos, a casa era uma algazarra de brinquedos e descobertas. Hoje, são homens feitos. Ver um filho tornar-se homem é o atestado final de que cumprimos nossa missão. Eles são a minha imortalidade física.
CAPÍTULO 21
Rosane: Minha Amiga e Irmã de Ideais (Baseado nas crônicas 82 e 83)
Na estrada da vida, temos a família de sangue e a família de alma. Rosane Strazas Henkin pertence à segunda categoria.
Costumo dizer que caminhamos por "estradas paralelas que frequentemente se cruzam". A nossa conexão não é geográfica, é vibracional. Ela é a minha "irmã de ideais". Compartilhamos aquela busca incessante pelo que está oculto, pela espiritualidade que transcende rituais. É uma amizade que, tenho certeza, não começou nesta vida e não terminará nela.
CAPÍTULO 22
Nepal 2026: O Chamado do Himalaia (O Futuro)
Enquanto escrevo estas linhas, uma nova aventura desenha-se no horizonte. O ano de 2026 (ou 2027) reserva um destino que pulsa na minha mente: o Nepal.
Por que o Nepal? Talvez porque, depois de uma vida inteira lidando com a tecnologia ocidental e com a lógica húngara, minha alma peça o silêncio das montanhas mais altas do mundo. Quero ver o Himalaia.
Planejo estar lá durante o festival Tihar, o festival das luzes. Para alguém que amou tantos pets e que trabalha como Papai Noel levando luz, faz todo o sentido. Esta viagem não será apenas turismo; será uma peregrinação.
CAPÍTULO 23 (EPÍLOGO)
O Legado e a Continuidade (Baseado na crônica 28)
Chegamos ao fim deste primeiro compêndio. De Battonya a Indaial. De 1948 a 2026.
O que é a Saga Purgly? Não é a história de heróis. É a história de pessoas que teceram, que cozinharam, que plantaram rosas, que estudaram e que amaram.
Deixo este registro não por vaidade, mas por dever. Um povo sem memória é um povo sem futuro. Ao organizar estas crônicas, construí uma ponte. Espero que, daqui a 50 ou 100 anos, algum descendente leia estas linhas e entenda: "Eu existo porque eles resistiram. Eu sonho porque eles trabalharam".
A louça está limpa. O algoritmo foi decifrado. A vida continua.
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