Aos 70 anos eu não sou velho. Velho são os outros. Será?







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Aos 70 anos eu não sou velho. Velho são os outros. Será?


Extraído o artigo: Políticas públicas para o século 21

Ricardo Mucci, #OPEN_TO_WORK
Board Advisor | Expert em Longevidade e Economia Criativa | Geração Bossa Nova | Advisor e Head de Conteúdo da Gazeta Mercantil | Instituto Heartfulness Brasil | Acesse minha NewsLetter | Agende uma reunião

A Bomba Demográfica e o Século 21: Onde o Brasil Falha na Longevidade?

O Brasil possui um arcabouço legal robusto. O Estatuto da Pessoa Idosa (desde 2003) e uma rede de proteção social que atinge 83,4% dos idosos com alguma renda previdenciária ou assistencial (como o BPC) provam que a teoria existe. O SUS, com todas as suas limitações, atende 75% dessa população. No entanto, o relatório da FGV EAESP e do Instituto Itaú Viver Mais acende um alerta vermelho: a nossa estrutura regulatória não se traduz em políticas públicas eficientes, financiadas e executadas com consistência.

No índice internacional Global AgeWatch Index, que mede o bem-estar na velhice, o Brasil ocupa uma incômoda posição intermediária. Estamos abaixo de economias desenvolvidas e até de vizinhos latino-americanos com renda per capita menor. O diagnóstico é claro: nossas políticas foram desenhadas para um perfil populacional que está se tornando obsoleto.

Para desarmar essa "bomba demográfica", o estudo aponta 7 áreas de intervenção urgente que exigem técnica, ética e vontade política:

  • 1. Reforma Previdenciária Continuada: Construir um sistema equitativo, que corrija distorções entre regimes e inclua trabalhadores informais, garantindo a sustentabilidade matemática sem punir os mais vulneráveis.

  • 2. Adaptação do Sistema de Saúde: Migrar do modelo que apenas trata a doença avançada para um focado em prevenção. Isso exige formação de gerontologistas, ampliação do cuidado domiciliar e criação de centros-dia para dependência parcial.

  • 3. Inclusão Digital Efetiva: Criar um programa nacional de alfabetização digital como política de Estado. Hoje, 61% dos idosos brasileiros enfrentam as piores condições de conectividade, gerando exclusão social e funcional.

  • 4. Proteção Financeira Rígida: Combater a epidemia de golpes financeiros (que cresceram mais de 70% entre 2022 e 2023). Propõe-se uma supervisão estrita do crédito consignado e um período de reflexão obrigatório de 7 dias para assinatura de contratos de crédito.

  • 5. Cidades Caminháveis (Walkable Cities): Readequar o espaço urbano (calçadas, rampas, iluminação e sombreamento). Cidades do Sul da Europa (Lisboa, Barcelona, Roma) possuem maior expectativa de vida também porque sua estrutura urbana estimula a caminhada e combate o isolamento social.

  • 6. Combate ao Etarismo: Superar a barreira cultural que descarta profissionais acima dos 50 anos e ignora o consumidor sênior, aplicando as leis de proteção contra a discriminação por idade.

  • 7. Arquitetura Institucional e Gestão de Fundos: O dado mais alarmante do relatório: em 2022, o mecanismo de renúncia fiscal do Estatuto do Idoso disponibilizou cerca de R$ 8 bilhões, mas apenas 16,6% foram utilizados por empresas e míseros 2% por pessoas físicas. O dinheiro existe; falta coordenação, projetos e uma secretaria ou ministério dedicado, a exemplo do Japão e Reino Unido.

O envelhecimento é um processo irreversível na nossa linha do tempo. O maior obstáculo para essa transformação talvez seja a própria negação das lideranças atuais que, mesmo passando dos 60 anos, enxergam o envelhecimento como "o problema do outro". O século 21 exige governança técnica e menos vaidade política para que a longevidade seja inteligente, sustentável e digna.

Fonte: Fonte: FGV EAESP / Instituto Itaú Viver Mais — Projeto Longevidade e Economia Brasileira, agosto de 2025. Dados de IBGE, Ministério da Previdência Social, OMS e HelpAge International.

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