Capítulo 19 Jingles: A Trilha Sonora da Nossa Saudade

Capítulo 19 Jingles: A Trilha Sonora da Nossa Saudade
A memória auditiva é uma traidora. Eu posso esquecer o que almocei ontem, ou onde guardei a chave do carro (frequente), mas basta ouvir três acordes de um comercial antigo para que uma década inteira passe diante dos meus olhos. Eu sou da geração dos jingles. Naquela época, a publicidade não queria apenas vender; ela queria encantar. E conseguia. Existem músicas que, para mim, são hinos não oficiais do Brasil. Quem não sente um arrepio ao ouvir: "Estrela brasileira no céu azul... Iluminando de Norte a Sul..."? O jingle da Varig não vendia apenas passagens aéreas; vendia elegância, vendia o orgulho de ver um avião brasileiro conectando o mundo. Era uma melodia que prometia que, se você entrasse naquele pássaro de metal, seria tratado como um rei. E o que dizer do Natal? Muito antes de eu vestir a roupa de Papai Noel, o Natal começava oficialmente na televisão quando o coral do Banco Nacional aparecia: "Quero ver você não chorar, não olhar pra trás, nem se arrepender do que faz..." Aquilo era um golpe baixo emocional. A música era triste e feliz ao mesmo tempo. Falava de futuro, de amor e de paz, com aquelas crianças de olhos brilhantes. Hoje, o banco não existe mais, mas a música sobreviveu à falência financeira para virar patrimônio do coração. Mas há uma lembrança específica que mistura minha fascinação pelo oriente e pela narrativa: a propaganda de Urashima Taro da Varig. Era uma obra-prima. Contava a lenda do pescador japonês que salvou uma tartaruga, foi levado ao fundo do mar, e ao voltar, descobriu que o tempo tinha passado de forma diferente. "Urashima Taro, um pobre pescador..." Aquela melodia oriental, a narração suave... aquilo me ensinou sobre a relatividade do tempo muito antes de Einstein. O comercial vendia voos para o Japão, mas para mim, vendia a ideia de que viajar é, de fato, transitar pelo tempo. Hoje, os comerciais são rápidos, agressivos, feitos para o Instagram de 15 segundos. Não há mais tempo para contar a história de um pescador ou para uma orquestra sinfônica saudar uma companhia aérea. Talvez por isso eu goste tanto de ser Papai Noel. O Natal é o último reduto onde os jingles antigos ainda fazem sentido, onde a magia do "Quero ver você não chorar" ainda é a ordem do dia. Sou um homem analógico num mundo digital, cantarolando baixinho melodias de empresas que já fecharam, mas que deixaram suas portas abertas na minha memória.

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