Capítulo 23 Como e por que aprendi Esperanto

Capítulo 23 Como e por que aprendi Esperanto

 

Pode parecer excentricidade que um engenheiro, ocupado com cálculos de energia e fitas de telex, dedicasse tempo a aprender uma língua que não tem país, não tem exército e não é exigida em currículos corporativos. Mas o Esperanto, para mim, nunca foi sobre "utilidade" imediata.

Foi sobre esperança e lógica. Minha atração pelo Esperanto nasceu, curiosamente, da minha herança húngara. O húngaro é uma língua difícil, isolada na Europa, e profundamente lógica. 

É uma língua aglutinante: você pega uma raiz e vai colando sufixos e prefixos para mudar o sentido.

 Quando descobri o Esperanto, criado pelo Dr. Lázaro Luís Zamenhof, tive uma sensação de déjà vu. A estrutura era familiar! O Esperanto também funciona como um jogo de montar. Uma raiz, um final "o" para substantivo, "a" para adjetivo, "as" para verbo no presente. Para a minha mente de engenheiro, aquilo era a perfeição.

 Era uma língua sem exceções, sem verbos irregulares, sem as armadilhas que tornam o inglês ou o francês um campo minado. Era um sistema limpo, eficiente, quase matemático. 

Mas o "porquê" vai além da gramática. Cresci ouvindo as histórias de Trianon, de fronteiras mudando, de povos que se odiavam porque não se entendiam. O ideal do Esperanto — uma segunda língua neutra para todos, que não substitui a língua mãe, mas permite que um húngaro, um brasileiro e um japonês conversem de igual para igual — ressoou fundo no meu coração. 

Aprendi sozinho, com livros e dicionários, num tempo sem Duolingo. Descobri que o Esperanto é a língua da fraternidade. Quem aprende Esperanto não o faz por dinheiro; faz porque acredita na humanidade. 

Encontrei "samideanos" (como chamamos os companheiros de ideal) que eram, invariavelmente, pessoas de mente aberta e coração generoso. Hoje, o mundo escolheu o inglês "quebrado" como língua franca. É uma solução prática, mas sem alma. 

O Esperanto continua sendo o meu "idioma de reserva", uma utopia guardada na gaveta. Ele me ensinou que a comunicação perfeita é possível, e que, se o mundo fosse um pouco mais lógico (como o húngaro) e um pouco mais fraterno (como o Esperanto propõe), talvez não precisássemos de tantos tratados de paz.

 E, ironicamente, ele me ajudou a entender melhor o próprio português e o húngaro. Foi a ginástica mental que preparou meu cérebro para os desafios que viriam depois, da programação de computadores à leitura de íris.

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