Capitulo 7 A História da Hungria

Capítulo 7- A História da Hungria
Para muitos, a Hungria é apenas um pequeno país no coração da Europa, famoso pelo Danúbio e pelo Goulash. Para mim, é a cicatriz e a glória que carrego no DNA. A história da minha família não começa com uma certidão de nascimento, mas com o galope de sete tribos magiares que, vindas dos Urais, decidiram que a Bacia dos Cárpatos seria o seu lar. Em o ano 1000, o Rei Estevão (Szent István) recebeu a Coroa Sagrada do Papa e transformou aqueles guerreiros nômades em um bastião da cristandade. Ser húngaro é viver na encruzilhada. Fomos a muralha que defendeu a Europa das invasões mongóis e otomanas. Sangramos para que o Ocidente pudesse florescer. Mas a história, ingrata, muitas vezes nos cobrou um preço alto demais. O golpe mais duro veio em 1920, com o Tratado de Trianon. Imagine você dormir no seu país e acordar em outro, sem ter saído da cama. Foi o que aconteceu com a minha família. O tratado retalhou a Hungria, tirando-lhe dois terços do território. A cidade de Arad e as terras de Jószás, berço dos Purgly, foram entregues à Romênia. De repente, os Purgly de Jószás tornaram-se estrangeiros na sua própria terra ancestral. Isso explica a diáspora. Explica por que o olhar do meu pai às vezes se perdia no horizonte. Não era apenas saudade; era a dor de um mapa que foi apagado. E então veio 1956. O ano em que nasci no Brasil foi o ano em que a Hungria tentou sacudir o jugo soviético. Tanques russos nas ruas de Budapeste, jovens lutando com coquetéis molotov contra gigantes de aço. A Revolução de 56 não foi apenas política; foi o grito de uma alma nacional que se recusava a ser silenciada. Eu sou o resultado dessas tempestades. Carrego a resiliência dos que sobreviveram a Trianon e a esperança dos que buscaram novos mundos. O Brasil nos acolheu, e aqui o "sangue páprica" se misturou com o "sangue feijoada". A História da Hungria não é sobre fronteiras; é sobre sobrevivência. É sobre manter a cabeça erguida, seja num castelo na Transilvânia ou numa casa em Indaial. Porque, no fim das contas, a pátria não é o solo onde pisamos, mas a memória que guardamos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Como ler a mão

As 12 reencarnacoes de Emmanuel

Rede em apartamento com parede de alvenaria estrutural, pode?