CB150 Capítulo 126 - O Engenheiro que Aprendeu a Fabricar Sorrisos

 


CB150 Capítulo 126 - O Engenheiro que Aprendeu a Fabricar Sorrisos

Durante cinquenta anos, minha vida foi definida pela precisão. Como engenheiro elétrico, eu vivia num mundo de lógica, circuitos e exatidão. Fui criado sob a rigidez de uma educação húngara, onde a frase "Noblesse Oblige" — a nobreza obriga — era repetida como um mantra pelos meus pais, refugiados de guerra que reconstruíram a vida no Brasil. Eu era o Jorge da Siemens, o Jorge da ABB, o homem que viu o mundo passar das válvulas para os transistores e, finalmente, para a Inteligência Artificial.

Mas, em paralelo a esse mundo de frieza técnica, eu carregava um segredo. Desde o meu nascimento "empelicado", um fato raro que minha mãe dizia ser sinal de proteção divina, eu sentia que havia algo mais. Uma vida espiritual interna que eu mantinha guardada, separada da minha persona pública.

A virada aconteceu de forma inesperada, numa sala de aula, anos após eu ter me aposentado da engenharia e me tornado professor de inglês. Um aluno, o advogado Silvio Uliano, olhou para mim e disparou uma pergunta que mudaria meu destino. Ele perguntou se minha barba era verdadeira e, ao confirmar que sim, sugeriu: "Por que você não se torna Papai Noel? Conheço gente que daria um braço para ter a barba que você tem".

Aquela frase ecoou. A aposentadoria no Brasil não é fácil, e a necessidade de ser criativo para sobreviver falou alto. Mas não foi apenas o dinheiro que me moveu; foi a curiosidade. Minha esposa Tininha e eu pesquisamos modelos, comprei veludo alemão na Casa Bitencourt e, de repente, ao me olhar no espelho, o engenheiro havia desaparecido. Ali estava o Bom Velhinho.

Minha estreia foi num grande supermercado local, o Angeloni. A tarefa parecia simples: entregar presentes que "padrinhos" haviam comprado para crianças carentes cujas fotos enfeitavam a árvore de Natal da loja. Tudo corria como um protocolo festivo, com música, fotos e risadas. Até que a fila diminuiu e um menino se aproximou.

Ele tinha cerca de sete anos. Suas roupas estavam sujas, o nariz escorria e seus olhos carregavam uma tristeza que nenhuma criança deveria conhecer. Eu me preparei para o pedido padrão — uma bola, um carrinho, um videogame. Mas ele olhou no fundo dos meus olhos e disse apenas: "Papai Noel, estou com fome".

O mundo parou. Toda a minha lógica de engenharia, toda a minha carreira técnica, nada daquilo servia para aquele momento. Meus olhos se encheram de lágrimas. Perguntei onde estavam seus pais. "Não sei", ele respondeu. "Estou sozinho no mundo e não sei para onde ir". Antes que eu pudesse tirar a carteira do bolso, a gerência do mercado interveio e garantiu um almoço farto para ele. O menino comeu com avidez. Depois, ganhou roupas novas e brinquedos.

Mas não foi isso que marcou minha alma. Ao final, ele correu até mim, abraçou minhas pernas com uma força desesperada e fez o pedido que me transformou para sempre: "Papai Noel, me leva com você. Não tenho para onde ir".

Precisei me esconder no banheiro para chorar, esperando que a assistência social o levasse a um abrigo seguro. Naquele dia, o engenheiro Jorge morreu um pouco, e o Papai Noel nasceu de verdade. Percebi que minha missão não era fabricar máquinas, mas fabricar esperança.

Hoje, entendo que nasci para isso. Seja nos eventos da Coca-Cola, nas visitas a hospitais ou doando meus cabelos brancos para a Rede Feminina de Combate ao Câncer, encaro essa roupa vermelha como um sacerdócio. Dizem que a tecnologia move o mundo, e eu dediquei minha vida a ela. Mas foi preciso vestir uma fantasia para descobrir o que é real: o calor de um abraço humano e a capacidade de transformar a dor em magia. Eu sou Papai Noel 24 horas por dia, e nunca fui tão feliz ao me lembrar destes momentos.

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