Saga Purgly Postagem 12 O Salto no Escuro Da UNRRA aos Trópicos de Viena para Guarulhos

 



Saga Purgly Postagem 12 O Salto no Escuro Da UNRRA aos Trópicos passando por Friedrichshafen

Jorge, essa peça do quebra-cabeça (UNRRA na Áustria -> Friedrichshafen) dá um realismo impressionante à história. Ela mostra que a viagem não foi um "passeio" direto; foi uma odisseia através de campos de refugiados e zonas de ocupação.

Estar sob a tutela da UNRRA (United Nations Relief and Rehabilitation Administration) na Áustria significa que eles viveram a realidade dos "Pessoas Deslocadas" (DPs - Displaced Persons). E passar por Friedrichshafen (na fronteira com a Suíça, no Lago de Constança) mostra a rota de fuga pelo sul, buscando a zona americana, longe dos soviéticos.

Aqui está a Postagem 12 definitiva, incorporando a rota exata, a perda do arroz e a chegada ao Brasil.


Postagem 12: O Salto no Escuro: Da UNRRA aos Trópicos

Subtítulo: 100 vagões de arroz ficaram para trás. Pela frente, a rota de fuga: Áustria, Friedrichshafen e o mar.

Existem dias que valem por anos. Para meus pais, Johann Purgly e Theodora Ghillány, o final da Segunda Guerra não foi o fim do sofrimento, mas o início de uma longa travessia.

Eles já haviam perdido muito. Johann tinha visto seu filho mais velho morrer sem socorro médico. Theodora já estava com a minha irmã Magdolna criança de 5 anos de colo. Mas a verdadeira prova de fogo seria deixar a identidade para trás e virar um número na lista de refugiados.

O Adeus à Hungria: Os 100 Vagões A imagem mais dolorosa que meu pai carregou não foi a da casa vazia, mas a da estação de trem de Battonya. Lá, aguardando embarque, ficaram 100 vagões carregados com o arroz que ele havia cultivado com sua técnica revolucionária. O fruto do seu gênio ficou para trás, abandonado para alimentar as tropas soviéticas que ocupavam o país. Ficar na Hungria significava morte ou prisão (como aconteceu com meu avô Emil). Sair significava perder tudo, talvez até a vida.

A Rota da Esperança: Áustria e UNRRA Eles fugiram para o oeste. A primeira parada segura foi na Áustria, sob a proteção da UNRRA (Administração das Nações Unidas para Auxílio e Reabilitação), na Zona Americana. Imaginem a cena: o Barão e a Baronesa, o Engenheiro recordista e a filha de juristas, agora vivendo em campos de "Pessoas Deslocadas". Ali, não importava se você era um Purgly ou um Ghillány; importava se você tinha o carimbo certo para receber comida e salvo-conduto. Foi um banho de humildade, mas também de humanidade.

A Passagem por Friedrichshafen A rota os levou da Áustria em um trem fechado para a Alemanha, especificamente para Friedrichshafen, às margens do Lago de Constança. Esta cidade não era um lugar qualquer. Era a fronteira física e psicológica entre o passado destruído e o futuro possível. Destruída pelos bombardeios, mas olhando para a Suíça do outro lado do lago, Friedrichshafen foi o último ponto de respiração na Europa. Ali, entre as ruínas e o frio, meus pais decidiram que a Europa não era mais o lar. Eles haviam cruzado a Alemanha de trem e tudo estava destruido. Não havia pedra sobre pedra. O lar precisava ser construído do outro lado do oceano.

A Travessia e a Chegada O embarque no navio foi o corte final do cordão umbilical. Nas malas, poucas roupas, a criança de cerca de 5 anos,  Madalena e um tear Texmatic desmontado — a única "ferramenta" que meu pai conseguiu salvar, apostando que sua habilidade técnica seria útil em qualquer lugar.

Quando o navio atracou na Ilha das Flores, no Rio de Janeiro, destino dos imigrantes refugiados,  o calor úmido do Brasil os abraçou. Johann não era mais o "Senhor de Jószás". Ele era apenas um imigrante com uma esposa, uma filha e uma vontade de ferro. O Brasil os recebeu com seus desafios, seus mosquitos e sua liberdade.

Minha irmã Magdolna, hoje Madalena, não se adaptou ao calor do Rio. Como a temperatura em São Paulo era mais amena, eles foram transferidos em trem fechado para o campo de refugiados de Campo Limpo Paulista, SP,  onde os imigrantes aguardavam que alguém os resgatasse e que se responsabilizasse por eles.

Semanalmente o Jornal O Estado de São Paulo trazia a lista dos refugiados chegados em Campo Limpo, e quando a Dona Serena, húngara, que tinha uma hospedaria para húngaros em São Paulo viu o nome Purgly, ela decidiu resgatar esta familia.

E assim foi, meus pais ficaram hospedados na garagem da hospedaria cujo aluguel era mais barato, meu pai montou a maquina de tear e começou a trabalhar.

Meu pai fazia lindos conjuntos americanos de tecido que a minha mãe vendia nas Casas Lemke, Lojas Americanas e Sears Roebuch perto da Av. Paulista.

Em pouco tempo meus pais foram morar na Rua João Julião, perto da Av. Paulista em São Paulo. Meu pai procurava um lugar para morar e para construir a fabrica onde houvesse energia elétrica.

Ele encontrou terrenos a venda pela Companhia Mercantil Francisco Conde na Vila Galvão, Guarulhos, SP, onde havia eletricidade para movimentar os teares. Ele mesmo construiu o galpão e a casa e se mudou prá lá quando eu tinha um ano de idade.

 E foi em Guarulhos, que a Saga Purgly deixou de ser uma história de fuga para virar uma história de construção.

Afinal, quem foi capaz de bater recordes mundiais de arroz num pântano húngaro, certamente saberia plantar uma nova vida no solo vermelho do Brasil.


Jorge, esta versão ficou épica. Ela traça a linha geográfica perfeita: Battonya (Arroz) -> Budapeste (Porão) -> Áustria (UNRRA) -> Friedrichshafen (Fronteira) -> Brasil (Renascimento).

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