Saga Purgly Postagem 14 - A Garagem, o "Gato" que vira Bolo e a Descarga Imaginária
Saga Purgly postagem 14 Aqui está a Postagem 14, capturando essa essência leve e empreendedora.
Postagem 14: A Garagem, o "Gato" que vira Bolo e a Descarga Imaginária
Subtítulo: Enquanto outros discutiam política, meu pai ligava o tear. E minha mãe vendia em francês (e com mímica) no centro de São Paulo.
Depois de um breve (e confuso) período em Campo Limpo Paulista, meus pais foram "resgatados" para a civilização. O novo endereço era chique na localização, mas humilde na acomodação: a garagem da pensão da Dona Serena, a apenas 200 metros da Avenida Paulista.
Ali, no coração de São Paulo, a família Purgly começou a virar o jogo.
Ação x Palavras A pensão estava cheia de imigrantes. A maioria passava o dia em rodas de conversa, discutindo a política europeia, lamentando a guerra ou debatendo teorias sobre o futuro. Meu pai, Johann, não tinha tempo para teorias. Ele era um homem de prática. Enquanto os vizinhos gastavam saliva, ele montou o tear Texmatic que trouxera desmontado. Em pouco tempo, o som rítmico da máquina abafou as discussões políticas. Johann começou a tecer Jogos Americanos de mesa. Ele sabia que o futuro não se discute; se fabrica.
A Vendedora Poliglota (e Mímica) Se Johann era a produção, Theodora era o departamento comercial. Ela não falava português, mas tinha a elegância de uma baronesa e falava fluentemente alemão e francês. Isso foi uma chave mestra em São Paulo, especialmente com os lojistas árabes (sírio-libaneses), que dominavam o comércio de luxo e também falavam francês.
Mas, às vezes, a língua dava um nó. Certa vez, visitando um árabe rico dono de uma grande loja, ofereceram-lhe uma bebida: — Aceita um chá?
Minha mãe, ouvindo com ouvidos franceses, entendeu "Chat" (Gato). Confusa, ela perguntou: — Chá? Miau miau? Onde está o gato?
Os lojistas caíram na gargalhada e corrigiram em português: — Não, madame! O bicho é "gato"! Isso aqui é bebida.
Aí a confusão piorou (e melhorou). Ao ouvir "Gato", ela entendeu "Gâteau" (Bolo em francês). Os olhos dela brilharam. Ela fez gestos de quem come um bolo delicioso com as mãos. A gargalhada foi geral. Entre miados, chás e bolos imaginários, o gelo se quebrou completamente.
A Mímica da Descarga Nessa mesma visita, ela precisou ir ao banheiro. Fez o gesto clássico de lavar as mãos. Os funcionários, solícitos, a levaram para um lavabo (uma pia). Ela olhou, disse "Não!", sentou-se numa cadeira e puxou uma cordinha imaginária no ar, imitando o barulho de uma descarga. Eles entenderam na hora e riram a valer.
Aquela baronesa que não tinha medo de fazer mímica conquistou a simpatia de todos. Ela saiu de lá não apenas com amigos, mas com a pasta cheia de pedidos. As vendas dela trouxeram a primeira prosperidade para a família.
Do Paraíso à Vila Galvão O sucesso dos Jogos Americanos permitiu que saíssemos da garagem. Mudamo-nos para uma casa alugada na Rua João Julião, no bairro do Paraíso, onde havia mais espaço. Lá, a produção cresceu. Meu pai comprou a primeira máquina elétrica. O ritmo aumentou. E foi com o dinheiro desse trabalho — fruto da engenharia dele e da simpatia vendedora dela — que eles finalmente compraram o terreno definitivo na Vila Galvão, em Guarulhos.
A base estava montada. O próximo passo seria construir a fábrica e... me trazer ao mundo.
Jorge, que história maravilhosa. Ela mostra que a simpatia e a vontade de trabalhar superam qualquer barreira linguística.
Agora, o palco está montado em Guarulhos. A próxima é a Postagem 15, que é um marco duplo: 1956.
O ano em que a fábrica se estabelece.
O ano em que você nasce.
O ano em que a Hungria tenta se libertar (Revolução de 56).
Podemos avançar para o seu nascimento?
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