Saga Purgly Postagem 19: O Pequeno Lorde e o Menino da Rua
Saga Purgly Postagem 19: O Pequeno Lorde e o Menino da Rua
Subtítulo: A educação dos meus pais: onde a etiqueta de um castelo húngaro encontrava a liberdade de um moleque brasileiro.
Viver na Vila Galvão dos anos 60 era viver em dois países separados por um portão de ferro. Do portão para fora, eu era o Jorge. Jogava bola na rua de terra, soltava pipa, andava de carrinho de rolimã e falava a gíria dos meus amigos. Eu era brasileiro. Do portão para dentro, eu era o "Zsorzsika" (o pequeno Jorge). Ali, as regras eram outras. Ali, imperava o Código Purgly.
A Etiqueta à Prova de Falência
Uma coisa que aprendi cedo é que dinheiro e educação são coisas distintas. Mesmo nos momentos mais difíceis, quando perdemos a fábrica e fomos morar na garagem, a etiqueta à mesa nunca foi relaxada. Poderíamos estar comendo uma sopa simples, mas a postura tinha que ser ereta. — Cotovelos fora da mesa! — era o mantra. O manejo dos talheres era cirúrgico. A faca na mão direita, o garfo na esquerda, e jamais, em hipótese alguma, falar de boca cheia. Meus pais, Johann e Theodora, trouxeram da Europa algo que os ladrões de patentes e os espiões industriais não podiam roubar: a classe. Eles me ensinaram que a dignidade não está no que você tem no prato, mas em como você se porta diante dele.
A Torre de Babel e os Segredos
A comunicação em casa era um jogo de estratégia. O idioma oficial era o húngaro. Mas meus pais tinham uma "arma secreta". Quando queriam discutir assuntos de adultos, finanças ou problemas que as crianças não deviam saber, eles mudavam a chave instantaneamente. Passavam para o Alemão ou para o Inglês. Eu ficava ali, tentando pescar uma palavra ou outra, frustrado com aquele código indecifrável. Isso aguçou minha curiosidade. Com o tempo, aprendi a falar tambem o Alemão e tambem o Inglês, principalmente para poder conversar com as visitas. Havia um quarto de hospedes e era comum meus pais hospedarem visitantes estrangeiros por vários dias. Talvez por isso eu tenha me tornado tão comunicativo; eu precisava decifrar o mundo. Por outro lado, eu tinha minha própria arma secreta: o português coloquial e as gírias que aprendia com a Zoraide e com a rua, que soavam tão estranhas para meus pais quanto o alemão soava para mim. Futuramente conheci a vida de Lazáro Luiz Zamenhof e resolvi aprender a falar Esperanto, para a estranheza de meus familiares. Aprendi a falar pelo exclente método Esperanto Sem Mestre do meu mentor Francisco Valdomiro Lorenz. Depois de adulto já na Siemens, trabalhei no México e aprendi a falar Castelhano.
O Olhar do Ministro
A disciplina do meu pai, Johann, raramente precisava de gritos. Ele herdara a autoridade do pai dele, o Ministro Emil Purgly. Bastava um olhar. Quando eu aprontava alguma (e eu aprontava, afinal, era uma criança cheia de energia e "amigos invisíveis"), ele me lançava aquele olhar por cima dos óculos ou parava o que estava fazendo. O silêncio dele pesava mais que qualquer palmada. Era o peso da decepção, e eu fazia de tudo para não decepcioná-lo. Minha mãe era a executora do dia a dia. Mais vocal, mais emotiva, ela gerenciava a ordem doméstica com firmeza, garantindo que o "pequeno selvagem" que voltava da rua sujo de terra se transformasse novamente no "filho da baronesa" após o banho.
A Honra acima de Tudo
Mais do que garfos e facas, a educação rígida era sobre caráter. Havia uma regra inquebrável: A Palavra. Um Purgly não mente. Um Purgly cumpre o que promete. Cresci ouvindo histórias de honra, de antepassados que perderam tudo menos o nome. Isso criou em mim uma bússola moral que, às vezes, me atrapalhou no "jeitinho brasileiro", mas que me permite colocar a cabeça no travesseiro todas as noites, mesmo hoje, nas dificuldades financeiras.
O Resultado da Mistura
Essa educação dual criou um híbrido. Graças a ela, hoje eu posso transitar em qualquer ambiente. Posso jantar com um embaixador e saber qual garfo usar para o peixe. E posso sentar na calçada com um humilde assistido da Prefeitura e falar a língua do coração. Eles achavam que estavam criando um pequeno nobre húngaro. A rua achava que estava criando um moleque paulista. No fim, eles criaram o Jorge: o homem que une esses dois mundos.
Jorge, o que achou? Essa postagem mostra que a sua "nobreza" hoje não é financeira, é comportamental.
Próximo Passo (Postagem 20): Agora o menino sai de casa e vai para a escola formal. Temos o Liceu Brasil e o Colégio Claretiano. Podemos falar sobre a sua vida escolar e os professores marcantes? (E o tal uniforme que você talvez odiasse ou amasse?)

Comentários
Postar um comentário
Olá deixe aqui o seu comentário. Devido à Spams e propaganda que nada tem a ver com o conteúdo do blog a moderação de comentários foi ativada. Seu comentário será publicado depois de aprovado. Muito obrigado por sua participação!