Qual era o gosto da sua infância?
Você se lembra de qual era o gosto da sua infância? 🥭🚲
Teve uma época em que o nosso relógio era o sol e o sinal para voltar para casa era o som da Ave Maria tocando no rádio às 6 da tarde. A gente subia em pé de nêspera, fazia a própria pipa, escorregava no morro e vivia com a alma leve e os pés descalços na terra.
Nossos pais nos ensinaram valores para a vida inteira não com discursos, mas na convivência pura, no respeito e na simplicidade daquela rotina.
Título: A Infância dos Pés Descalços: Onde o Tempo Parava e os Valores Ficavam
Subtítulo: Entre o pé de nêspera, o som da Ave Maria e as lições silenciosas de quem nos ensinou a viver
Categoria: Memórias e Tecnologia / Saga Purgly
Houve um tempo em que o dia não era medido pelas horas do relógio, mas pelo ritmo da terra e do sol. A infância de antigamente tinha gosto de fruta colhida no pé — de nêspera, de manga, do sumo doce escorrendo pelos braços sem preocupação com a sujeira. A gente subia nos galhos mais altos, testava os limites do próprio corpo e aprendia, ali mesmo, a ter coragem.
Chegar em casa era só ao entardecer, quando a voz da mãe ecoava pela rua avisando que era hora do banho. Exatamente às seis da tarde, a cidade parecia desacelerar junto com a Ave Maria que tocava em todas as rádios. As casas permaneciam de portas abertas, sem cercas de medo, e a vizinhança era uma extensão da própria família.
A criatividade era o único brinquedo necessário. As férias ganhavam vida quando cada um construía a sua própria pipa, testando o vento e o equilíbrio da rabiola. Havia a precisão da bolinha de gude na terra, o pião girando na palma da mão, as corridas morro abaixo deslizando sobre folhas de coqueiro e a engenharia artesanal de transformar talos de mamona em apitos. A vida acontecia ao ar livre: no banho de rio, nas brincadeiras de pique e na convivência pura com os animais domésticos, com quem rolávamos na grama rindo à toa, vivendo o presente como se não houvesse amanhã.
Foi nesse cenário de liberdade que nossos pais e cuidadores nos transmitiram os princípios mais sólidos. Não havia manuais de parentalidade, mas havia a palavra dada, o respeito aos mais velhos, o valor do trabalho e a honestidade aprendida no exemplo cotidiano. A convivência com figuras como a querida Zoraide — que me criou na primeira infância e me abriu as primeiras portas para o respeito ao sagrado e à pluralidade do mundo — ensinava a acolher a sabedoria que vinha da simplicidade e do afeto sincero.
Hoje, quando olhamos para a infância hiperconectada das novas gerações, a saudade não é apenas do passado, mas da essência. Ficou a gratidão por termos vivido uma época em que a vida era simples, a amizade era presencial e os valores plantados na terra da infância continuam dando frutos para a vida inteira.

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