Capítulo 13 - O Roseiral da Tininha

Capítulo 13 - O Roseiral da Tininha
Houve um tempo, antes de o horizonte se limitar às paredes do nosso quarto, em que o mundo da Tininha tinha o cheiro de terra molhada e o vermelho vibrante das pétalas. Ela sempre teve o que chamam de "dedo verde", mas sua verdadeira paixão era o roseiral. Não eram apenas flores; eram as filhas silenciosas que ela cultivava com uma paciência que hoje me comove lembrar. Ela sabia o tempo exato da poda, a quantidade certa de água e conversava com os botões como se fossem segredos prestes a serem revelados. O roseiral da Tininha era um espetáculo. Quem passava e via, não imaginava o trabalho que dava. E talvez aí esteja a grande ironia da vida. As rosas são a metáfora botânica perfeita da minha esposa. Elas são de uma beleza que impõe respeito. Têm cor, têm perfume, têm uma altivez régia. Mas, para serem o que são, convivem intimamente com os espinhos. Hoje, a fibromialgia é o espinheiro que cerca a Tininha. Aquelas mãos que antes manejavam a tesoura de poda com firmeza, hoje muitas vezes não suportam o toque de um lençol. O jardim físico ficou no passado, numa casa que já não habitamos, ou num tempo que escorreu pelas mãos. No nosso apartamento, o espaço encolheu, mas a essência permaneceu. Às vezes, quando olho para ela deitada, vencendo mais uma noite de insônia e dor, vejo que o roseiral não desapareceu. Ele migrou para dentro dela. A Tininha continua sendo essa flor rara e resistente. A doença pode ter tirado dela a capacidade de caminhar até o jardim, mas não tirou a sua dignidade, a sua cor e a sua capacidade de perfumar a minha vida, mesmo nos dias mais cinzentos. Eu, que hoje cuido das minhas suculentas (plantas que exigem pouco e resistem a tudo), sinto uma saudade imensa de vê-la entre as rosas. Mas aprendi que o meu papel agora é ser o jardineiro de outra forma: cuidando para que, mesmo sem sol direto, a rosa mais importante da minha vida continue viva.

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