Capítulo 16 - Quando os meninos eram meninos (e hoje são homens)
Capítulo 16 - Quando os meninos eram meninos (e hoje são homens)
Tininha com os filhos pequenos e a Tininha hoje.
A paternidade é uma estranha máquina do tempo. Os dias parecem longos, mas os anos passam num piscar de olhos.
Lembro-me de quando a nossa casa em Guarulhos era um território dominado por brinquedos, fraldas e aquele barulho constante de vida. Jorge Luis chegou em 1982 e Daniel Luis em 1984. Uma "escadinha" de dois anos que garantiu que o silêncio fosse banido do nosso lar por pelo menos duas décadas.
Criar meninos na década de 80 era diferente.
Não havia telas de toque, tablets ou internet para distraí-los. A diversão era analógica, tátil e, muitas vezes, ralava os joelhos.
Nossa sala se transformava num campo de batalha estratégico. As noites de War e Banco Imobiliário não eram apenas jogos; eram aulas de negociação, paciência e controle emocional (especialmente quando alguém perdia um território na África ou caía na prisão do tabuleiro). Eu via ali, entre dados e peões de plástico, a personalidade de cada um se formando.
A Tininha era a regente dessa orquestra caótica. Enquanto eu estava focado na engenharia, na Icotron ou viajando a trabalho, ela mantinha a disciplina e o dengo em equilíbrio. Ela curava as febres, intermediava as brigas de irmãos e garantia que a lição de casa estivesse feita.
Havia uma magia na simplicidade daqueles tempos. O cheiro de café da manhã, a expectativa do Natal (muito antes de eu sonhar em ser o Papai Noel oficial), e a certeza de que, não importasse o tamanho do problema, o pai e a mãe resolveriam.
Mas o tempo é um escultor implacável.
Um dia, você se abaixa para amarrar o sapato do seu filho. No outro, você olha para o lado e percebe que precisa levantar a cabeça para encarar os olhos dele.
O tópico "Meu filho é homem" não é apenas uma constatação biológica; é um choque de realidade.
Ver o Jorge Luis e o Daniel hoje, adultos, formados, trilhando seus próprios caminhos, gera um sentimento agridoce.
O doce é o orgulho. Orgulho de ver que os valores que plantamos — a honestidade, o trabalho, a resiliência — floresceram. Eles são homens de bem. São cidadãos que honram o sobrenome Purgly e Vasconcelos.
O amargo (ou talvez apenas nostálgico) é perceber que minha função mudou. Eu não sou mais o capitão que dirige o barco deles; sou agora o farol que fica na costa. Eles navegam seus próprios oceanos.
Eles não precisam mais que eu espante os monstros debaixo da cama. Os monstros agora são boletos, responsabilidades profissionais e desafios da vida adulta. E eles sabem lutar.
Quando olho para eles, ainda vejo, por uma fração de segundo, os meninos que corriam pela sala em Guarulhos. Mas logo a imagem se dissipa e vejo os homens que estão à minha frente. E concluo: fizemos um bom trabalho, Tininha. A missão mais difícil e importante das nossas vidas foi cumprida com sucesso.



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