Capítulo 29 A Tininha e a Fortaleza Invisível
Capítulo 29 A Tininha e a Fortaleza Invisível
O Coronel Mandú, pai da Tininha, era um homem de ferro. Diziam que ele tinha uma resistência sobre-humana, mas a verdade é que ele convivia com um inimigo invisível. Ele tinha muitas dores, dores que na época não tinham nome, mas jamais se queixou. Sofria em silêncio, mantendo a postura ereta de militar.
A Tininha, a caçula amada, herdou do Coronel muito mais do que o gênio forte e a inteligência lúcida. Herdou também a maldita herança genética. Só que, no caso dela, o inimigo ganhou nome e sobrenome na década de 90, em São Paulo: Fibromialgia.
Foi um terremoto lento. Gastamos o que tínhamos e o que não tínhamos — fortunas, tempos, esperanças — em busca da cura, ou pelo menos de uma trégua. Médicos, tratamentos, promessas. Mas a fibromialgia é um hóspede indesejado que se recusa a ir embora.
Hoje, em 2025, nossa vida em Indaial foi redesenhada por essa realidade.
A Tininha, aquela mulher que subia em árvores e cuidava de roseirais, hoje está acamada. A fibromialgia se juntou a uma cardiopatia, e o mundo dela se restringiu às paredes do nosso apartamento. Faz dois anos que ela não cruza a porta para a rua.
Para quem olha de fora, pode parecer triste. Para nós, é a construção de uma fortaleza invisível.
Tivemos que reinventar o casamento. Dormimos em quartos separados. Não por falta de amor, mas por excesso de sensibilidade. A pele dela tornou-se um campo minado; o simples roçar de um lençol ou um toque meu durante o sono pode fazê-la gritar de dor. O abraço físico tornou-se raro, calculado, mas o abraço da alma ficou mais apertado.
Nossos relógios também pararam de sincronizar. Ela troca a noite pelo dia. Enquanto eu saio para trabalhar no SAIS ou vestir a roupa de Papai Noel, ela dorme, recuperando as energias da batalha noturna contra a dor.
À noite, o cenário se inverte. Eu durmo, e ela vigia.
Mas há um código secreto entre nós. A cada duas horas, meu relógio biológico me acorda para ir ao banheiro. No silêncio da madrugada, enquanto caminho pelo corredor, sinto a presença dela acordada no outro quarto. Ela sabe que estou ali. Eu sei que ela está ali.
Não precisamos dizer nada. Esse "estar ali" é o nosso "Eu te amo".
Somos só nós dois. Sem platéia, sem roseiral lá fora, sem viagens internacionais. Apenas Jorge e Tininha, habitando essa fortaleza onde a dor entra, mas não vence, porque o amor aprendeu a sobreviver nas entrelinhas, no silêncio e na distância segura de um quarto para o outro.
O Coronel Mandú estaria orgulhoso. Sua filha herdou a dor, sim, mas herdou também a bravura de nunca abandonar o posto.
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