FT 08 - O Idioma do Coração e as Fronteiras da Saudade
FT 08 - O Idioma do Coração e as Fronteiras da Saudade
Muitos leitores me perguntam sobre as raízes que cruzaram o oceano com meus pais. Afinal, como fica a identidade de alguém que cresceu entre dois mundos? A pergunta que recebi toca em um ponto sensível e sagrado: "Jorge, você ainda fala húngaro ou mantém algum hábito diário que seja puramente de Battonya?"
A resposta habita em um lugar de silêncio e, ao mesmo tempo, de muita sonoridade.
O Som da Minha Origem
O húngaro é, para mim, o idioma da ternura. Foi a língua que me embalou e a língua que mantive viva através de uma conexão inabalável com a minha mãe, a Trivó Dora. Ela nos deixou há dois anos, após uma jornada incrível de 100 anos e 6 meses. Partiu como viveu: com uma lucidez admirável, em casa, dormindo e em paz.
Até o seu último suspiro, o húngaro foi a nossa ponte. Hoje, ele não faz mais parte do meu cotidiano "falado", mas ele se manifesta no meu inconsciente. É curioso e belo: às vezes, eu sonho com a minha mãe conversando comigo em húngaro. Nessas fronteiras do tempo, onde o sonho e a realidade se fundem, minha língua materna permanece intacta, preservando nossa essência.
O Idioma do Sentimento
Com a minha irmã, Madalena, a dinâmica é diferente. Entre nós, o português assumiu o protagonismo. E há uma razão profunda para isso. Acredito sinceramente que, de todas as línguas que conheço, o português é o idioma que permite a maior expressão de sentimentos. É uma língua "viva", moldável, capaz de nuances que outras gramáticas não alcançam. Por essa riqueza emocional, eu o considero o idioma do futuro.
Brasileiro com Orgulho, Húngaro de Alma
Embora eu carregue o legado de Battonya e a herança dos Purgly, eu me defino como um legítimo brasileiro. Vivo e respiro este Brasil continental e multifacetado, que acolheu minha família e me permitiu construir minha própria história.
Manter um hábito "puramente de Battonya" hoje é, talvez, manter esse olhar atento à história e à resiliência. Minha herança húngara não está em rituais rígidos, mas na força de recomeçar e na capacidade de sonhar em uma língua e amar em outra.
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