Saga Purgly Postagem 10 Johann Purgly Parte 2 O Engenheiro, o Recorde e a Fuga Como Johann Purgly transformou um pântano em recorde mundial e deixou 100 vagões de arroz para trás

Saga Purgly Postagem 10 Johann Purgly Parte 2 

 Título: O Engenheiro, o Recorde e a Fuga



Subtítulo: Como Johann Purgly transformou um pântano em recorde mundial e deixou 100 vagões de arroz para trás.

Meu pai, Johann Purgly (1909–1990), não era apenas um herdeiro de terras. Ele era um cientista. Formado Engenheiro Agrônomo com louvor, ele recebeu um presente de grego quando jovem: a fazenda da família em Battonya.

Era uma terra difícil. Alagava todos os anos, dava prejuízo e vivia de uma agricultura de subsistência e da criação de porcos Mangalica (aqueles de pelo longo e encaracolado). Os vizinhos diziam que ali não dava nada. Mas meu pai tinha a mente inquieta dos Purgly.

O Milagre do Arroz: A Dunghan Shali


Ele sabia que lutar contra a água era inútil; o segredo era usá-la. Ele importou uma semente vinda da Rússia, uma variedade exótica chamada Dunghan Shali. Era resistente, forte, mas havia um inimigo mortal: um mosquito cuja larva furava o caule do arroz. Quando o nível da água subia, a planta apodrecia.

Não existia veneno para isso. Então, Johann usou a lógica.

Ele desenvolveu um sistema hidráulico preciso: baixava o nível da água até expor o furo no caule. O sol cicatrizava a ferida da planta (autocura). Só então ele subia a água novamente.

O resultado? A planta sobrevivia, sadia e forte.


O Recorde de 1940


Essa técnica o tornou uma lenda no vale Duna-Tisza. Ele se tornou consultor especialista e fornecedor oficial do Exército Húngaro.

Em 1940, ele bateu o que consideramos um recorde mundial de produtividade por hectare para a época. Pelos meus cálculos, comparando com dados modernos, ele atingiu marcas que só seriam comuns 60 anos depois (como na cidade de Massaranduba/SC nos anos 2000).


A Fuga e os 100 Vagões


Mas a guerra não respeita colheitas.

Quando as tropas russas romperam a fronteira em 1944, meus pais foram avisados poucas horas antes. Tiveram que fugir com a roupa do corpo.

A imagem mais dolorosa que meu pai carregou não foi a da casa vazia, mas a da estação de trem de Battonya. Lá, aguardando embarque, ficaram 100 vagões carregados com o arroz que ele havia cultivado com tanto suor. O fruto do seu gênio ficou para trás, para alimentar os invasores.


O Inferno em Budapeste


Em vez de desertar, meu pai atendeu ao chamado militar. Viajou num "pau-de-arara" para Budapeste com a esposa Theodora e dois filhos pequenos.

Lá, viveram no porão da casa da família, em frente à Universidade, sob os bombardeios aliados e o cerco russo.

O homem que produzia toneladas de arroz agora sobrevivia fazendo cigarros manuais (uma habilidade de diletante que virou salvação) e trocando-os por comida. Depois, com a mesma engenhosidade, montou um tear Texmatic para tecer o sustento da família.


As Feridas que não Cicatrizam


Por que vir para o Brasil? Não foi só pela economia. Foi pela dignidade.

Dois golpes mataram a Hungria dentro do meu pai:

  1. A Humilhação do Pai: Meu avô, o Ministro Emil Purgly, foi preso político. Os guardas o obrigavam a varrer a calçada e davam moedas para os moleques cuspirem nele, gritando: "Vejam onde foi parar o ministro!". Para um filho, ver o pai herói tratado assim era insuportável.

  2. A Morte de Jancsika: Meu irmão mais velho, János (o pequeno Jancsika), morreu aos 10 anos, sufocado pelo crupe (difteria). Ele faleceu num Dia do Trabalho (1º de Maio), quando os médicos foram obrigados pelo regime comunista a desfilar nas ruas, abandonando o hospital.

Foi ali que Johann decidiu: o Brasil seria o novo lar. Ele trouxe o tear, a esposa Dora e a vontade de vencer. Em 1949, fundou em Guarulhos a Fiação Johann Purgly Tecelagem Dora.

Deixou o arroz em Battonya, mas trouxe a semente da resiliência no bolso.


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