FT 21 – A Patologia do Descaso: Quando a Burocracia Esmaga a Humanidade
FT 21 – A Patologia do Descaso: Quando a Burocracia Esmaga a Humanidade
O que leva um ser humano, investido da função de "Servidor", a deixar de servir? O que transforma a promessa de cuidar do bem comum em um dar de ombros, um olhar vazio ou a fria resposta: "o sistema não permite"?
Como servidor público, e agora observando o horizonte com a experiência de quem já viu muitas gestões passarem, tenho refletido sobre a anatomia do descaso. Não acredito que as pessoas nasçam "más" ou decidam acordar de manhã pensando em prejudicar o próximo. O buraco é mais embaixo. O descaso no serviço público não é um evento isolado; é um sintoma de uma doença sistêmica que corrói o caráter se não estivermos vigilantes.
1. A Banalidade do Mal Burocrático Hannah Arendt nos ensinou que o mal nem sempre é feito por monstros, mas por pessoas comuns que pararam de pensar. No serviço público, isso acontece quando o funcionário deixa de ver o ser humano à sua frente e passa a ver apenas um "número de protocolo". O paciente com dor vira o "processo 402"; a mãe aflita vira a "pendência na tela". Ao transformar pessoas em papel, o servidor se protege emocionalmente, mas perde sua humanidade. O descaso nasce dessa desconexão: ele não está negando ajuda a uma pessoa, ele está apenas "seguindo a norma".
2. A Armadilha da Estabilidade A estabilidade é uma conquista essencial para proteger o servidor da perseguição política, garantindo a impessoalidade do Estado. Contudo, para o espírito fraco, ela se torna uma muleta, um "cabide". Sem o medo da demissão, e muitas vezes sem uma política de meritocracia real, o servidor acomoda-se na mediocridade. Cria-se a cultura do "mínimo esforço", onde fazer mais do que o obrigatório é visto pelos colegas como "querer aparecer". A estabilidade, que deveria ser escudo para servir melhor, vira escudo para não servir.
3. O Muro da Ingerência Política Nada é mais tóxico para a vocação do que a descontinuidade. O técnico estuda, se especializa, cria fluxos lógicos (como tentamos fazer no TFD e SISREG), e de repente, muda a gestão. Entra uma chefia sem preparo, por indicação política, que desfaz o que funciona apenas para "imprimir sua marca". O servidor, vendo seu trabalho ser tratado como irrelevante, adoece de cinismo. O descaso, muitas vezes, é um grito silencioso de frustração: "Se ninguém lá em cima se importa, por que eu vou me importar?".
4. A Perda do Propósito (O Dharma) Por fim, há a questão espiritual e vocacional. O serviço público exige, antes de tudo, amor ao público. Quando se entra nessa carreira apenas pelo salário, o dia a dia torna-se um fardo insuportável. O descaso é o refúgio de quem está no lugar errado, cumprindo uma pena diária de 8 horas.
Conclusão Combater o descaso exige mais do que leis ou sistemas eletrônicos; exige uma reforma íntima. Exige que nós, servidores, lembremos diariamente que por trás de cada carimbo, de cada regulação e de cada "enter" no teclado, existe uma vida pulsante esperando por uma solução.
A fronteira entre o burocrata frio e o servidor humano é tênue. Cruzá-la de volta para o lado da humanidade é uma escolha que fazemos a cada atendimento.
Por fim, devemos estar atentos ao agente invisível que perpetua esse estado de coisas: o cinismo. Não o cinismo filosófico da antiguidade, que buscava a verdade nua, mas o cinismo moderno, que age como a 'morte da esperança disfarçada de sabedoria'. Ele é o mecanismo de defesa que nos sussurra ao ouvido que 'nada vai mudar' e que a indiferença é apenas 'realismo'. O servidor cínico acredita que se protege ao não se importar, mas na verdade, apenas se isola. Romper com essa casca é o ato de rebeldia mais necessário hoje. Pois, ao contrário do que prega o cínico, o mal não é a regra; ele é apenas o vazio deixado quando os bons desistem de ocupar seu espaço com integridade.
Como dizia Csiky Jakie: "O tempo será o nosso juiz". E o tempo cobrará de nós não os carimbos que batemos, mas as dores que aliviamos.
Comentários
Postar um comentário
Olá deixe aqui o seu comentário. Devido à Spams e propaganda que nada tem a ver com o conteúdo do blog a moderação de comentários foi ativada. Seu comentário será publicado depois de aprovado. Muito obrigado por sua participação!