Saga Purgly Postagem 16 (Parte 2): Flash-forward A Roda da Fortuna
Jorge, o termo técnico literário e cinematográfico para esse "avanço no tempo" é Flash-forward (em inglês) ou Prolepse (em português). É quando a narrativa salta para o futuro para mostrar uma consequência ou um contraste, quebrando a ordem cronológica.
Fazer esse movimento agora, logo após descrever a prosperidade da fábrica na Parte 1, é um recurso narrativo poderosíssimo e corajoso. Cria um contraste brutal entre a "construção do império" do seu pai e a realidade espiritual e desapegada que você vive hoje. Mostra que a Roda da Fortuna gira, mas o caráter permanece.
Aqui está a Postagem 16 (Parte 2), escrita com a dignidade e a crueza que você pediu.
Xanita, Phillipe, mamãe Dora, Tininha, Jorge, Jorge Luis e Daniel há 40 anos.
Saga Purgly Postagem 16 (Parte 2): Flash-forward: A Roda da Fortuna
Subtítulo: Um salto no tempo. Da fábrica próspera à realidade de hoje. O que o dinheiro comprou e o que a vida ensinou.
Na literatura, existe uma técnica chamada Flash-forward (ou prolepse). É quando a história dá um salto brusco para o futuro, rasgando o tempo, para mostrar onde aqueles caminhos vão dar.
Peço licença ao leitor para sair da Vila Galvão dos anos 60, cheia de máquinas barulhentas e prosperidade, e pousar bruscamente no hoje, em 2026.
O Ápice e a Queda
Aquele menino que corria entre os teares cresceu. Houve um tempo em que a prosperidade desenhada pelo meu pai Johann se materializou na minha vida adulta.
Cheguei a herdar e possuir um terreno de 3 mil metros quadrados, três casas e comprei um apartamento. Materialmente, eu tinha tudo o que a sociedade diz que é necessário para ser "feliz" e "seguro".
Mas a vida não segue a lógica dos cartões perfurados do tear. Ela tem variáveis que não controlamos.
Com a doença da minha esposa Tininha, o patrimônio se dissolveu. Não foi perdido em jogos ou luxos; foi transmutado em cuidados, em tentativas de cura, em sobrevivência. Perdi tudo materialmente para tentar salvar o que era essencial.
A Realidade Crua de Hoje
Hoje, aos 69 anos, aquele menino "nascido em berço de ouro" (ou de algodão egípcio) vive uma realidade que chocaria os vizinhos da antiga Vila Galvão.
Moro de aluguel. Quem paga o teto sobre a minha cabeça é minha sobrinha. Quem paga o condomínio é minha irmã, Madalena.
No ano retrasado, toquei o fundo do poço. Cheguei a passar necessidade física. Dependi da caridade alheia para me alimentar. A fome não pergunta o seu sobrenome, nem se seu pai foi um gênio da engenharia. Ela apenas dói.
As Três Fontes e o Sufoco
Hoje, a luta continua diária. Tenho três fontes de renda, e nenhuma delas me dá a segurança daquela antiga fábrica:
Servidor Público: Trabalho na Prefeitura, ganhando um pouco mais do que o salário mínimo municipal.
Aposentadoria: Que mal cobre uma fração das contas, embora eu sempre tenha contribuido pelo maximo.
Papai Noel e Terapeuta: O trabalho sazonal que traz a magia (e o extra necessário) e as leituras de Tarô eventuais.
Mesmo somando tudo, passo apertado quase todo mês. É uma matemática que raramente fecha com sobra.
A Preparação para a Passagem
Pode parecer triste ler isso, mas não escrevo com amargura. Escrevo com a clareza de quem já passou da metade do caminho.
Tenho 69 anos. A Tininha e eu estamos, cada um à sua maneira, nos preparando para fazer a "passagem". Não sabemos quando o Grande Tear vai cortar o fio, mas sabemos que o tecido já está quase todo tecido.
Olho para trás, para a fábrica do meu pai, e entendo: ele construiu máquinas e tecidos. Eu, através da perda e da dor, construí outra coisa. Talvez menos tangível, mas igualmente resistente.
A Roda da Fortuna girou. O dinheiro foi, a honra ficou. E enquanto o fio não for cortado, continuo trabalhando, seja na Prefeitura, seja vestindo o manto vermelho do Noel. Porque um Purgly pode ficar sem dinheiro, mas nunca sem dignidade.
Jorge, esta postagem é um soco no estômago, mas é necessária.
Ela humaniza você de uma forma absoluta. Você não é um herdeiro contando vantagens; é um sobrevivente compartilhando a verdade.
Agora que fizemos esse contraponto dramático, o retorno à infância na Postagem 17 (O Café da Manhã) terá um sabor ainda mais nostálgico e precioso.
Podemos voltar para a mesa da cozinha da Dona Dora?

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