Saga Purgly Postagem 16 (parte 3)

 Jorge, essa dualidade é emocionante. De um lado, o barulho industrial que feriu seus ouvidos; do outro, a música suave que acalentava sua alma. Isso mostra que a casa não era apenas uma fábrica de tecidos, mas também uma "fábrica de afeto".



O gravador Geloso é um ícone! Aquele carretel pequeno, o microfone de baquelite... é a semente do seu amor pela tecnologia e áudio (que vamos ver mais tarde nos posts sobre jingles e locução).

Como estamos tratando do ambiente da casa/fábrica, vou classificar isso como Postagem 16 (Parte 3), para fechar o ciclo do "cenário" antes de entrarmos no "café da manhã" na Postagem 17.

Aqui está o rascunho:


Saga Purgly Postagem 16 (Parte 3): O Silêncio Forçado e a Gaita de Fole (Harmônica)

Subtítulo: O preço que meus ouvidos pagaram pelo barulho dos teares e a doce recompensa das noites musicais com o gravador Geloso.

Toda moeda tem duas faces. Se crescer dentro de uma fábrica me deu segurança e uma infância mágica, também me deixou uma cicatriz permanente.

O Preço do Progresso


Aquela "música de ninar" mecânica — o tla-tla-tla incessante dos teares Texmatic batendo dia e noite — cobrou seu preço. Meus ouvidos infantis, expostos por anos a decibéis industriais dentro de casa, sofreram o desgaste.

Só vim a descobrir a conta anos depois. A perda auditiva foi progressiva, silenciosa como a poeira do algodão. Desde os meus 60 anos, dependo da tecnologia para ouvir melhor o mundo: uso aparelho auditivo bilateral. É a marca física que a Fiação Johann Purgly deixou no meu corpo.


A Transformação da Noite


Mas se o dia era de barulho, a noite era de melodia. Havia um ritual sagrado na Vila Galvão.

Quando meu pai desligava a chave geral da fábrica, o silêncio súbito parecia um estrondo. Johann tomava um banho refrescante, tirava a graxa e a poeira e deixava de ser o engenheiro para ser o artista.

Ele pegava sua harmônica (gaita de fole). Minha mãe, Theodora, sentava-se ao lado dele.

Ali, na sala, acontecia o romance que a guerra não conseguiu matar. Ele tocava, ela cantava.


Altató Dal: A Canção de Ninar


Meu pai compôs dezenas de músicas para harmônica. Eram melodias que misturavam a saudade da Hungria com a esperança do Brasil.


Mas havia uma especial: "Altató Dal" (Canção de Ninar).


Era infalível. Bastavam os primeiros acordes da gaita e a voz doce da minha mãe para que eu, o menino agitado do quintal, caísse no sono profundo. Era o som da segurança. Minha mãe, sempre linda, cantava canções folclóricas húngaras e novas composições, enchendo a casa de uma beleza que nenhum tear podia fabricar.


O Gravador Geloso: Meu Primeiro Amor Tecnológico


Para eternizar esses momentos, meu pai comprou uma maravilha tecnológica da época: um gravador de rolo Geloso (aquele clássico italiano, bege, com fitas magnéticas pequenas).

Eu amava aquele aparelho. Ele era a memória física da nossa família.

Lá, ficaram registradas as sinfonias de gaita do meu pai e a voz de soprano da minha mãe. 


Mas não só isso. O pequeno Jorge também tinha seu espaço no "palco". Lembro-me vividamente de gravar minhas próprias performances, contando a história da Chapeuzinho Vermelho com toda a dramaticidade que uma criança consegue inventar.


Hoje, com meus aparelhos auditivos, daria tudo para ouvir aquelas fitas originais mais uma vez. O barulho das máquinas levou parte da minha audição, mas a música dos meus pais ficou gravada onde o silêncio não chega: no meu coração.


Jorge, fechamos com chave de ouro o "Ambiente da Infância".

Temos o cenário (Vila Galvão), a máquina (Tear), o futuro (Flash-forward da sua realidade) e a atmosfera sensorial (Barulho x Música).

Agora sim, o menino Jorge acorda na manhã seguinte a essas noites musicais e vai para a cozinha.

Estamos prontos para a Postagem 17: O Café da Manhã da Infância?

(Prepare as papilas gustativas: pão, manteiga, café com leite...)


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