Capítulo 40: O Café da Manhã da Infância da Tininha
Capítulo 40: O Café da Manhã da Infância da Tininha
O sabor da memória e a simplicidade do afeto.
Há histórias que a gente escuta com os ouvidos e há histórias que a gente escuta com o coração. As memórias da infância da Tininha sempre foram narradas de uma forma que me fazia sentir como se eu estivesse lá, sentado à mesa com ela, décadas antes de nos conhecermos.
Entre todas as lembranças que ela compartilhava, o café da manhã tinha um lugar sagrado.
Era na fazenda do meu sogro, o Coronel Mandú, um banquete digno de hotel cinco estrelas, como estes brunches sofisticados que vemos no Instagram hoje em dia, mas com sustança, como se diz. Era a riqueza da simplicidade. Ela me descrevia a mesa posta com uma reverência quase religiosa. O cheiro do café sendo coado na hora — no coador de pano, claro, porque segundo ela (e quem sou eu para discordar?), o filtro de papel rouba a alma do grão — invadia a casa e servia como o despertador oficial da família.
Ela falava do pão fresco. Não o pão industrializado de pacote que dura um mês na prateleira, mas aquele pão que tem cheiro de fermento e vida, entregue pelo padeiro sob encomenda. A manteiga, ela dizia, precisava ser daquelas que derretem imediatamente ao tocar o miolo quente, criando aquela poça dourada que é, talvez, a melhor definição visual de conforto. O leite tirado da têta da vaca, fervido e colocado num copo onde ao beber fazia o bigode de gordura.
Mas o ingrediente principal daquele café da manhã não estava na xícara ou no prato. Estava no tempo, na convivência com o Coronel Mandú que fazia daquele momento uma recordação inesquecível.
Na infância da Tininha, o café da manhã não era engolido às pressas com um olho no relógio e outro no celular. Era um ritual de início. Era o momento em que a família se olhava, se reunia para ganhar forças antes de o mundo lá fora começar a exigir suas demandas.
Quando ela me contava sobre isso, seus olhos brilhavam. Eu, vindo de uma rotina muitas vezes pragmática e corrida, aprendi com ela a valorizar esse momento. Ela trouxe essa "liturgia" para a nossa vida de casados. Mesmo nos dias mais tumultuados, tentar reproduzir, nem que fosse por 15 minutos, aquela paz da infância dela, era a forma dela dizer: "Aqui dentro está tudo bem".
Hoje, quando preparo meu café solitário antes de sair para o SAIS TFD em Indaial, às vezes fecho os olhos e consigo sentir aquele cheiro que ela descrevia. Entendi, depois de todos esses anos, que ela não sentia saudade apenas da comida. Ela sentia saudade da segurança a segurança que o querido papai transmitia. Aquele café da manhã era a certeza de que ela era amada e protegida. O café da minha tinha uma vasta mesa de frutas, tapioca, cuzcuz nordestino, carne de charque passada na manteiga, canjica. Tudo para encher os olhos de vontade e a boca de saliva.
E é essa a herança que tentei manter, e que levo comigo. O café nutre o corpo, mas é a memória do afeto de quem o preparou que nutre a alma.

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