Capitulo 10 - O Idioma Secreto e a Nave nos Cárpatos
Capitulo 10 - O Idioma Secreto e a Nave nos Cárpatos
Há uma teoria, que transita entre a conspiração e o folclore, que diz que os húngaros não são deste mundo.
Dizem as lendas mais antigas (e os teóricos mais criativos) que os Magiares são descendentes de viajantes estelares. Segundo essa história, há cerca de 5.000 anos, uma nave vinda de Sirius teria sofrido uma avaria e caído na Terra. O local do impacto? O Vale dos Cárpatos. Sem possibilidade de retorno, aqueles seres se adaptaram, misturaram-se, mas mantiveram algo que denuncia sua origem extraterrestre até hoje: o idioma.
Se você olhar o mapa da Europa, verá um mar de línguas latinas, germânicas e eslavas. E no meio disso tudo, ilhado, está o Húngaro. Ele não se parece com nada. Não tem parentes próximos. É uma língua aglutinante, onde as palavras são montadas como blocos de Lego, adicionando sufixos e prefixos intermináveis para criar novos sentidos.
Eu sou um portador desse "código alienígena".
Embora minha vida cotidiana em Indaial seja em português, e meus pensamentos já tenham se naturalizado brasileiros, há momentos em que o "chip" húngaro ativa.
O húngaro é uma língua de força. A sílaba tônica é sempre a primeira. É um idioma que exige decisão logo no início da palavra. Não há espaço para hesitação. Talvez por isso o povo húngaro seja tão resiliente; a própria forma de falar nos obriga a ser assertivos.
Hoje, confesso, falo pouco. O vocabulário enferrujou com o tempo e a falta de uso. Com a Tininha e meus filhos, a comunicação é na língua de Camões. Mas o "idioma secreto" sobrevive nas camadas mais profundas da minha memória.
Ele vive nas orações. O Pai Nosso e a Ave Maria em húngaro não são apenas rezas; são mantras que me conectam com a Dona Dora e o Seu Johann.
Ele vive na música. Quando ouço o Hino da Hungria ou as canções de Natal, não estou apenas ouvindo melodia; estou decodificando uma frequência que faz minha espinha vibrar de um jeito diferente.
Talvez a lenda da nave seja apenas uma metáfora bonita para explicar nossa solidão cultural. Ou talvez seja verdade.
Às vezes, quando olho para o céu estrelado de Santa Catarina, gosto de pensar que não sou apenas um engenheiro aposentado ou um Papai Noel. Sou um tripulante de uma longa viagem, guardando as últimas palavras de uma civilização distante, esperando que, de alguma forma, a mensagem seja entendida: a linguagem universal não é o húngaro, nem o português, é o coração.

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