Capítulo 25 A Prova de Fogo dos 20 Sabonetes

Capítulo 25 A Prova de Fogo dos 20 Sabonetes
Corria o ano de 1979. Era um tempo analógico, onde a saudade não se resolvia com a instantaneidade de uma mensagem de WhatsApp, mas exigia a presença física, o toque e o olhar. Eu, vindo de São Bernardo do Campo, tinha um compromisso sagrado: encontrar a Tininha em São Paulo, nas imediações do Hospital das Clínicas. Nossos finais de semana eram refúgios de namoro e juventude. Naquela tarde específica, o verão parecia ter decidido derreter o asfalto da capital. O calor era sufocante, denso, e eu me via preso na artéria pulsante da cidade: a Avenida Paulista. O trânsito, num daqueles dias de caos absoluto que só quem viveu em São Paulo entende, estancou. Meu carro tornou-se uma ilha de metal cercada por muralhas de ônibus, à direita e à esquerda, num confinamento claustrofóbico. A fila não andava, o tempo não passava. Foi então que o meu próprio corpo, talvez em protesto contra aquela imobilidade, decidiu rebelar-se. Uma cólica súbita, violenta e visceral, anunciou o desastre iminente. Ali, travado entre escapamentos e latarias, sem rota de fuga, senti o suor frio contrastar com o calor da tarde. A porta do carro estava bloqueada pelos gigantes de ferro ao lado. Não havia para onde ir. Num gesto de desespero criativo, tentei conter o incontenível: amarrei o cinto de segurança ao redor das pernas, como um torniquete contra a lei da gravidade. Mas a natureza, implacável, impôs sua vontade. O alívio físico veio acompanhado da catástrofe social: senti-me sentado sobre o que, na minha aflição, descreveria como uma montanha morna e indesejada. Sem celulares para avisar do atraso ou do infortúnio, restou-me a resignação. Segui em marcha lenta, carregando comigo aquele segredo constrangedor, rezando para que o amor de Tininha fosse maior que o olfato ou as aparências. Ao encontrá-la, a postura dela definiu o futuro de nós dois. Não houve recuo, nem cara de nojo. Ao ouvir meu pedido de socorro e a confissão humilhante do meu estado, ela não hesitou. Com a prontidão de quem acolhe, embarcou naquela situação caótica (e aromática) e rumamos para o nosso refúgio de fim de semana: o motel. A cena que se seguiu foi, talvez, a mais inusitada prova de amor que já vivemos. Do quarto, liguei para a recepção com um pedido que deve ter soado, no mínimo, excêntrico: — Por favor, mandem vinte sabonetes. — Vinte, senhor? — a voz do recepcionista vacilou. — Sim. Vinte. E assim, passamos aquela noite. Não nos braços da paixão convencional, mas debruçados sobre o tanque e a banheira, transformando o banheiro em lavanderia industrial. Lavamos cada peça de roupa — calça, camisa, e o "epicentro" do problema — com aqueles minúsculos sabonetes perfumados, rindo até a barriga doer. Era uma dor agora bem-vinda, a dor do riso solto, da cumplicidade absoluta. Imaginávamos a camareira tentando decifrar o mistério: que tipo de orgia higiênica exigiria tanta espuma? As roupas foram estendidas atrás da geladeira do frigobar, aproveitando o calor do motor. Na manhã seguinte, tudo estava seco, limpo e pronto para o uso. O fim de semana seguiu seu curso, leve e feliz, como se nada tivesse acontecido. Naquele dia, na Avenida Paulista, eu perdi a dignidade por alguns instantes, é verdade. Mas no quarto daquele motel, entre vinte sabonetes e gargalhadas, ganhei a certeza de que havia encontrado a mulher da minha vida. Afinal, qualquer um pode estar ao seu lado na alegria e na saúde, mas só um grande amor ajuda a lavar a roupa suja — literalmente — e ainda ri disso com você décadas depois.

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