Capítulo 27 A Conspiração da Barba Branca
Capítulo 27 A Conspiração da Barba Branca
Eu sou um homem que ama a tecnologia. Fui da Siemens, usei Telex, vi nascer a internet. Mas, ultimamente, tenho a sensação de que a tecnologia não me ama de volta. Ou, para ser mais específico: ela não me reconhece.
Vivemos na era da "Segurança Biométrica". Tudo hoje exige que você prove que é você mesmo apontando a câmera do celular para o rosto. Para a maioria das pessoas, é um gesto simples. Para mim, é uma batalha épica.
O problema é a minha barba.
Não é uma barba rala, "por fazer". É uma barba de Papai Noel profissional. Branca, volumosa, majestosa. Ela é a minha marca registrada, o meu ganha-pão no fim do ano e o meu orgulho.
Mas, para os algoritmos de reconhecimento facial dos bancos (Banco do Brasil, Nubank, Mercado Livre, Uniodonto...), a minha barba é uma "obstrução".
A cena se repete com uma frequência irritante:
Abro o aplicativo. O bonequinho na tela pede: "Centralize seu rosto". Eu centralizo.
"Aproxime-se". Eu aproximo.
"Sorria". Eu sorrio (embora a vontade seja de chorar).
"Pisque os olhos". Eu pisco.
Aí vem a ampulheta girando... e a sentença fatal: "Rosto não reconhecido. Tente novamente."
Já tentei de tudo. Tentei prender a barba com grampos (fiquei parecendo um profeta louco). Tentei molhar a barba para diminuir o volume. Tentei luz do sol, luz de abajur, luz de lanterna. Nada. Para a Inteligência Artificial, o Jorge Purgly termina no nariz. O que vem abaixo é uma nuvem branca indefinida.
O mais tragicômico são as ligações para o suporte técnico.
— Senhor, o sistema não está conseguindo mapear o seu queixo — diz a atendente, seguindo o protocolo.
— Minha filha, eu não "tenho" queixo visível há 10 anos! O meu queixo é um conceito abstrato! — eu respondo.
A solução? Geralmente envolve desligar a modernidade. Preciso enviar documentos físicos, assinar papéis como se estivesse em 1990, ou implorar para que desliguem a camada de segurança extra.
Outro dia, uma criança me perguntou na rua: "Papai Noel existe?".
Tive vontade de responder: "Filho, se depender do aplicativo do banco, não. Papai Noel é um indigente digital."
É a "Conspiração da Barba Branca".
Parece que o mundo digital foi desenhado para pessoas "lisas". Nós, os barbudos, os Papais Noéis, os vikings modernos, somos os novos excluídos.
Mas eu não vou ceder. A barba fica. Se o algoritmo não gosta dela, o problema é do algoritmo. Eu prefiro ser reconhecido pelo sorriso de uma criança do que pela câmera de um celular.

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