Capítulo 31: A Verdade na Barba e a Magia no Vale

Capítulo 31: A Verdade na Barba e a Magia no Vale
Indaial e Blumenau, Dezembro de 2025. O calor de dezembro no Vale do Itajaí é implacável. O ar é denso, misturando a umidade do rio com o asfalto quente. Para a maioria, é a reta final de um ano difícil. Para mim, Jorge, é o palco onde minha vida se divide em dois atos, separados por uma estrada e um ritual sagrado. A manhã começa em Indaial. No SAIS, no setor de TFD, a realidade é burocrática e dura. Ali, não sou lenda; sou o servidor. Sou o homem atrás do balcão, regido por normas e silêncios. O celular permanece guardado, proibido, enquanto minha mente processa não apenas os pedidos de transporte dos pacientes, mas também os meus próprios embaraços jurídicos. O número do processo e as preocupações financeiras tentam fazer barulho na minha cabeça, mas o dever público exige foco. Ali, a dor do outro é a prioridade. Eu sirvo, contenho a ansiedade e sigo. Mas quando o expediente encerra, inicio a transição. O trajeto até Blumenau é o meu corredor de descompressão. Ao chegar na Casa do Papai Noel, o ritual é diferente da maioria. Eu não preciso colar adereços artificiais no rosto. Diante do espelho, eu apenas alinho o que já é meu. Minha barba, branca, longa e totalmente natural, cultivada com paciência e zelo, é o atestado de que aquilo não é apenas uma fantasia — é uma extensão de quem sou. Visto o traje. Não é uma roupa qualquer de feltro quente que sufoca. É um traje especial, preparado com tecnologia para absorver o suor das costas, feito sob medida para enfrentar o verão catarinense com dignidade. Quando fecho o cinto largo, sinto o conforto da preparação profissional. O peso dos problemas jurídicos, dos embargos e das contas, parece não conseguir atravessar o tecido vermelho. Lá fora, a magia acontece. Quando a primeira criança senta no meu colo, o olhar dela vai direto para o meu queixo. — É de verdade? — ela pergunta, estendendo a mãozinha. Eu sorrio e deixo que ela toque. Não há elásticos, não há cola. É a textura real da vida. — Pode puxar — digo com a voz mansa. Ela puxa levemente e os olhos se arregalam. Para aquela criança, a prova física da barba confirma: o milagre existe. E se o Papai Noel é real, a esperança também é. Entre um pedido de bicicleta e outro de saúde para a família, eu me curo. O Jorge preocupado com a execução judicial fica do lado de fora. Ali dentro, protegido pela minha barba natural e pelo meu manto vermelho, sou apenas generosidade. Sair do balcão do TFD em Indaial para reinar na Casa do Papai Noel em Blumenau é minha resistência. É a prova diária de que, mesmo quando a vida adulta nos pressiona com a rigidez da lei e a escassez de recursos, ainda podemos oferecer algo verdadeiro ao mundo. À noite, a roupa especial vai para o cabide. O Jorge retorna. Mas volto para casa com a alma lavada, sabendo que a minha verdade — estampada no meu rosto e no meu gesto — fez o Natal de alguém ser, de fato, real.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Como ler a mão

As 12 reencarnacoes de Emmanuel

Rede em apartamento com parede de alvenaria estrutural, pode?