Capítulo 32: O Peso dos Pedidos e a Leveza da Esperança

Capítulo 32: O Peso dos Pedidos e a Leveza da Esperança
Blumenau, Meados de Dezembro de 2025. A fila na Casa do Papai Noel parece interminável hoje. Estamos no meio do mês, o coração do Natal, e a ansiedade da cidade vibra no ar. Mesmo com a minha roupa especial, que me mantém seco e confortável, o cansaço físico começa a dar os primeiros sinais. Não é fácil manter a postura, o sorriso e o brilho no olhar por horas a fio, especialmente quando a mente insiste em viajar de volta para Indaial. Enquanto uma criança se aproxima, tímida, meus pensamentos traem o personagem por um segundo. Penso no orçamento do advogado, na petição que precisa ser feita, nos números frios do processo que mencionei mais cedo. A vida de "Jorge" está cheia de nós cegos para desatar. Mas então, sinto uma mãozinha pequena tocar o meu joelho. Olho para baixo e vejo um menino, talvez com seus sete anos. Ele não correu para o meu colo como os outros. Ele me analisa com seriedade. Ele olha para a minha barba, vê os fios brancos reais, e parece decidir que sou confiável. — Papai Noel — ele diz, num sussurro quase inaudito no meio do barulho do parque. — Eu não quero brinquedo este ano. Eu me inclino, aproximando o ouvido, o gesto clássico do Bom Velhinho que escuta segredos. — Não quer, meu rapaz? E o que você gostaria, então? — Eu queria que o meu pai parasse de chorar de preocupação com as contas. Você consegue ajudar ele? Aquele pedido me atingiu como um raio. Por um instante, o cenário mágico de Blumenau congelou. Eu vi naquele pai desconhecido o meu próprio reflexo. Vi o Jorge servidor, o Jorge aposentado, o Jorge que busca "valor social" para se defender na justiça. A angústia daquele homem era a minha. Respirei fundo. A barba natural roçou no rosto do menino quando o abracei com mais força do que o protocolo exige. Eu não podia prometer pagar as contas do pai dele, assim como não posso estalar os dedos e resolver a minha execução fiscal. Mas eu podia dar a ele — e a mim mesmo — algo que não tem preço. — Olhe para mim — disse, segurando os ombros dele e olhando fundo nos olhos. — O Papai Noel não paga boletos, mas ele traz esperança. Diga ao seu pai que o melhor presente ele já tem: um filho que se preocupa com ele. Isso dá força para qualquer homem vencer qualquer batalha. Vai ficar tudo bem. O menino sorriu, um sorriso de alívio, como se tivesse dividido o peso do mundo com alguém capaz de carregar. Ele saiu correndo, mais leve. Eu permaneci na poltrona, reacomodando o cinto, mas algo mudou. Aquele menino me lembrou o porquê de eu estar ali. Não é apenas sobre presentes. É sobre ser um porto seguro num mundo instável. Se eu disse a ele que vai ficar tudo bem, preciso acreditar que vai ficar tudo bem para mim também. O processo, os advogados, a burocracia do TFD... tudo isso é a tempestade. Mas aqui, nesta cadeira, com esta barba e este manto, eu sou o farol. A noite segue. O próximo da fila se aproxima. — Ho, ho, ho! — minha voz sai mais forte agora. A magia não resolve problemas judiciais, mas ela nos dá a coragem necessária para enfrentá-los no dia seguinte.

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