Capítulo 33: A Mão "Errada" e a Régua da Professora

Capítulo 33: A Mão "Errada" e a Régua da Professora
Guarulhos, Anos 60. Hoje, quando assino um documento no TFD ou gesticulo para uma criança na Casa do Papai Noel, ninguém imagina a batalha interna que minhas mãos travaram na infância. Vivemos em 2025, uma era de inclusão, onde as diferenças são (ou deveriam ser) celebradas. Mas eu cresci em um mundo diferente. Um mundo onde a normalidade era uma linha reta e estreita, e qualquer desvio precisava ser "consertado". Eu nasci canhoto. Para o meu cérebro, o mundo funcionava da direita para a esquerda. Pegar o lápis, chutar a bola, segurar o talher... meu instinto natural era usar o lado esquerdo do corpo. Era a minha natureza, a minha programação original de fábrica. Mas a escola dos anos 60 não tinha paciência para a natureza. Naquela época, ser canhoto não era apenas uma característica; era visto quase como uma falha de caráter, um defeito de fabricação. A própria palavra "sinistro" vem do latim sinistra, que significa esquerda. Havia uma superstição velada, uma rigidez pedagógica que dizia: "O mundo é destro, Jorge. Adapte-se." Lembro-me, como se fosse hoje, da sala de aula com carteiras de madeira envernizada. Lembro-me da professora, uma figura de autoridade inquestionável. E lembro-me da régua. Toda vez que minha mão esquerda avançava instintivamente para pegar a caneta tinteiro, vinha a correção. Às vezes verbal, ríspida: "Com a direita, menino!". Outras vezes, física. Não era maldade pura, era a crença da época de que estavam me fazendo um favor, me "endireitando" para a vida. Fui, literalmente, um canhoto forçado a ser destro. O processo foi doloroso e confuso. Tive que reprogramar meu cérebro na marra. Minha letra, no início, era um garrancho trêmulo, reflexo de uma mente que tentava comandar um braço que não queria obedecer. Enquanto as outras crianças escreviam com fluidez, eu desenhava cada letra com esforço, mordendo a língua de concentração. Mas há uma beleza irônica na adaptação humana. Ao me forçarem a usar a mão "certa", eles não mataram o canhoto em mim; apenas o esconderam. O resultado? Desenvolvi uma espécie de ambidestria forçada, mas também uma resiliência mental que carrego até hoje. Aprendi cedo que, às vezes, o mundo nos obriga a atuar contra nossa natureza para sobreviver ou para sermos aceitos. Aprendi a "dançar conforme a música", mesmo que o ritmo estivesse errado para mim. Talvez essa experiência tenha sido o meu primeiro treinamento para a vida adulta. Anos depois, eu precisaria transitar entre a lógica fria da Engenharia e a sensibilidade da Terapia Holística. Precisaria ser o servidor público rígido durante o dia e o Papai Noel mágico à noite. Aquele menino que teve a mão esquerda bloqueada aprendeu que existem duas maneiras de fazer as coisas: a do sistema e a sua própria. E que, com inteligência e paciência, é possível dominar ambas. Hoje, escrevo com a direita, mas sinto com a esquerda. E é esse equilíbrio, conquistado a duras penas, que me faz ser quem sou.

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