Capítulo 42: O Caos Mais Feliz do Mundo
Capítulo 42: O Caos Mais Feliz do Mundo
A casa cheia, o barulho e a doce exaustão.
Hoje, em 2025, minha casa em Indaial tem momentos de um silêncio profundo. É um silêncio de paz, de dever cumprido, mas às vezes ele ecoa. E é nesses momentos que a memória me transporta de volta para uma época onde o silêncio era um artigo de luxo, algo raro e quase inalcançável.
Estou falando da época em que as crianças eram pequenas.
Quem vê de fora, ou quem já esqueceu, pode romantizar demais. Mas a verdade é que criar filhos pequenos é uma maratona olímpica sem pódio no final do dia. Lembro-me do chão da sala, que deixava de ser um piso para se tornar um campo minado de brinquedos. Pisada em falso? Dor garantida em um bloco de montar ou em um carrinho esquecido.
A rotina era um turbilhão. Eram febrezinhas na madrugada que nos faziam virar médicos autodidatas às 3 da manhã. Eram as tarefas da escola, as lancheiras, a correria para conciliar a minha carreira de engenheiro, as viagens da Icotron ou Siemens, com a presença necessária em casa.
Mas, olhando para trás, percebo que aquele cansaço era o mais feliz que já senti.
Havia uma energia vital pulsando nas paredes. O som de risadas estridentes, de choros que precisavam de colo imediato, de "Pai, olha isso!", "Mãe, vem cá!". A casa estava viva. Ela respirava no ritmo acelerado dos meninos.
E havia a Tininha no comando dessa orquestra. Se eu era o provedor e o pai que tentava impor alguma lógica, ela era o porto seguro. Eu via a paciência dela, a capacidade de transformar um joelho ralado em nada apenas com um beijo, e aquilo solidificava nossa fortaleza.
Nós éramos jovens, muitas vezes exaustos, preocupados com o futuro, com as contas, com a educação deles. Mal sabíamos nós que aqueles dias de "luta" eram, na verdade, os dias de glória.
Existe uma frase famosa que diz: "Os dias são longos, mas os anos são curtos". Nada define melhor essa fase. Quando as crianças são pequenas, o dia parece ter 30 horas. Mas, de repente, você pisca, e a casa fica quieta. Os brinquedos somem. As vozes engrossam.
Hoje, quando vejo pais jovens reclamando do barulho ou da bagunça, tenho vontade de dizer: "Aproveitem a bagunça. Deixem o sofá rabiscado. Abrace o caos." Porque um dia, a casa fica impecável, tudo fica no lugar, e você daria qualquer coisa para tropeçar num carrinho de novo só para ouvir aquela risada de criança no corredor.
Minha casa hoje é organizada. Mas meu coração ainda guarda, com muito carinho, a desordem maravilhosa de quando eles cabiam no meu colo.

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