Capitulo 6 Esta é a minha história

Capítulo 6 - Esta é a minha história
Toda história começa antes mesmo de nascermos. A minha começou com uma fuga e uma esperança. Eu sou o fruto de uma árvore transplantada. Meus pais, Johann e Dora, deixaram a Hungria não porque queriam fazer turismo, mas porque a história os empurrou. Eles trouxeram nas malas pouca roupa, mas muita cultura. Trouxeram a resiliência dos Magiares, o gosto pela páprica, a fé inabalável e a nobreza de um sobrenome — Purgly — que, no Brasil, teve que ser reconstruído com trabalho, não com títulos. Nasci brasileiro, em 1956, mas cresci em uma casa que respirava a Europa. Minha infância foi um dueto de idiomas e costumes. Lá fora, o futebol, o samba e o calor tropical. Dentro de casa, a música clássica, o idioma húngaro (com sua gramática difícil e aglutinante) e as histórias de um país distante, de planícies e castelos, que eu aprendi a amar antes mesmo de conhecer. Minha história é a história de um "camaleão cultural". Tive que aprender a ser brasileiro na rua e húngaro na mesa do jantar. Talvez por isso eu tenha desenvolvido essa capacidade de transitar entre mundos. Fui o jovem que se apaixonou pela tecnologia quando ela ainda era mecânica. Enquanto meus amigos queriam ser jogadores de futebol, eu queria entender como a voz viajava por um fio de cobre. A engenharia não foi apenas uma profissão; foi a minha forma de organizar o caos do mundo. Trabalhei em multinacionais, viajei, fechei negócios, vesti terno e gravata. Fui o "Dr. Jorge" da Siemens. Mas a vida, roteirista caprichosa, tinha um plot twist guardado. A história que parecia ser sobre sucesso corporativo transformou-se numa história sobre humanidade. A mudança para Santa Catarina, o encontro com a Tininha, a descoberta da espiritualidade e, finalmente, a roupa de Papai Noel. Se você olhar minha linha do tempo, verá ziguezagues improváveis. Do Telex à Inteligência Artificial. Da aristocracia europeia ao serviço público no SUS. Do escritório refrigerado em São Paulo ao calor humano de Indaial. Esta é a minha história: não é uma linha reta. É uma colcha de retalhos. Cada pedaço — a dor da fibromialgia que enfrento ao lado da minha esposa, a alegria das crianças no Natal, a saudade dos meus pais — foi costurado com o fio da persistência. Não sou um herói de epopeia. Sou apenas o Jorge. Um homem que honra o passado húngaro, vive o presente brasileiro e tenta, todos os dias, ser uma boa pessoa. E no final das contas, acho que essa é a única história que vale a pena ser contada.

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