Capitulo 8 - A revolução húngara de 1956

Capítulo 8 - A Revolução Húngara de 1956
Eu tinha apenas dois meses de vida quando o mundo virou de ponta-cabeça. No Brasil, agosto de 1956 foi um mês de inverno tropical, de esperanças com o novo governo JK. Mas na Hungria, o outono preparava uma tempestade que entraria para a história. No dia 23 de outubro de 1956, estudantes universitários de Budapeste não foram para a aula. Foram para as ruas. O que começou como um protesto pacífico exigindo liberdade de imprensa e a retirada das tropas soviéticas transformou-se, em horas, numa guerra pela alma da nação. A imagem mais poderosa daquele dia não foi uma arma, mas uma bandeira. Os manifestantes olhavam para a bandeira tricolor húngara (vermelho, branco e verde) e viam no centro dela o brasão comunista imposto por Moscou — um martelo e uma espiga de trigo que nada tinham a ver com a nossa história. Com tesouras e canivetes, eles cortaram o centro do tecido. Nascia ali o símbolo máximo da revolução: a bandeira com um buraco no meio. O vazio deixado pelo corte gritava mais alto que qualquer discurso. Dizia: "Tiramos o que não é nosso. O que resta ao redor é a Hungria pura." Por 12 dias, o impossível aconteceu. Davi enfrentou Golias. Garotos de 15 anos lutavam contra tanques T-54 russos nas ruas estreitas de Peste. O ar cheirava a pólvora e liberdade. Mas a geopolítica é cruel. Enquanto o mundo ocidental olhava paralisado (distraído pela Crise de Suez), os tanques soviéticos voltaram no dia 4 de novembro. Desta vez, eram milhares. A ordem era esmagar. Meus pais, já no Brasil, acompanhavam as notícias pelo rádio, com o coração na boca. Imagino a angústia de Dora e Johann, olhando para o bebê Jorge no berço, seguros na América do Sul, enquanto ouviam os relatos de Budapeste queimando. "Estamos morrendo pela Hungria e pela Europa", dizia a última transmissão da Rádio Livre. A Revolução de 56 falhou militarmente, mas venceu moralmente. Ela criou uma diáspora de 200 mil húngaros que espalharam a verdade pelo mundo. Eu sou um filho indireto dessa era. Nasci no ano em que a Hungria mostrou ao mundo que tanques podem esmagar ossos, mas não conseguem preencher o buraco numa bandeira onde reside a liberdade.

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