FT 02 – Fronteiras do Tempo: A Minuteira Eletrônica e o Testemunho do Tempo

 

Este é o registro de FT 02. Nele, exploramos o contraste fascinante entre a "mão que entorta o prego" e a "mente que projeta para a eternidade". É uma reflexão sobre a obsolescência programada de hoje contra o rigor técnico que você herdou e aplicou desde cedo.


FT 02 – Fronteiras do Tempo: A Minuteira Eletrônica e o Testemunho do Tempo

No episódio anterior, confessei minha falta de jeito com o martelo — o fardo de ser um "ambicanhoto". No entanto, existe uma ironia deliciosa na minha trajetória: se minhas mãos falham na força bruta, elas triunfaram na precisão da solda e do circuito. O maior exemplo disso é um pequeno dispositivo que criei na juventude: a minha Minuteira Eletrônica.

O Berço da Invenção

Imagine o cenário: o banheiro da nossa oficina na Vila Rosália, transformado em um laboratório fotográfico improvisado. O cheiro de hipossulfito, os papéis da Cinótica e a luz vermelha criando uma atmosfera de mistério. Para revelar as fotos tiradas com a Kine Exakta, eu precisava de precisão. Um segundo a mais ou a menos no ampliador e a imagem se perdia.

Como eu não encontrava no mercado algo que atendesse ao meu nível de exigência (herdado do rigor de meu pai, Johann), eu mesmo projetei e montei uma minuteira eletrônica para controlar o tempo de exposição. Ali, entre componentes e soldas, o "guri de Guarulhos" deu lugar ao engenheiro.

O Teste de 50 Anos

Anos mais tarde, vendi esse equipamento — o ampliador e a minuteira — para Peter Pietz. O tempo passou, décadas se transformaram em história, e eu segui minha carreira por multinacionais e grandes obras.

Em 2022, recebi uma mensagem que me fez viajar no tempo. Era o Peter. Ele me escreveu para dizer que, após quase meio século, a minuteira eletrônica ainda funciona perfeitamente. Em um mundo onde celulares duram dois anos e eletrodomésticos são descartáveis, aquela pequena caixa montada por um adolescente em um banheiro de oficina resistiu ao tempo.

Durabilidade como Filosofia

Essa história não é sobre eletrônica; é sobre profundidade. Meu pai me ensinou que "fazer por fazer" não tem valor. Se algo deve ser feito, deve ser feito com a intenção de durar. Esse "DNA de durabilidade" foi o que levei para a Icotron, para a ABB e para a Senior. É a mesma precisão que hoje aplico na regulação do SAIS TFD em Indaial.

A minuteira do Peter Pietz é o meu selo de garantia. Ela prova que, mesmo que eu entorte pregos na parede, os circuitos que construo — sejam eles eletrônicos, profissionais ou humanos — são feitos para suportar as décadas.

A Fronteira do Tempo

A tecnologia muda (do analógico ao digital, do transistor à IA), mas a ética da qualidade é imutável. No final das contas, o que realmente deixamos para trás não são as coisas que compramos, mas a precisão e o cuidado que colocamos no que criamos.


Reflexão FT: "A obsolescência é uma escolha comercial; a durabilidade é uma escolha de caráter. O que você está construindo hoje que ainda estará funcionando daqui a 50 anos?"

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