FT 13 - A Verdade Factual como Escudo: O Caso do BNDES
Esta é uma das pontes mais fascinantes entre o rigor da engenharia e a filosofia de Hannah Arendt. Na crônica FT 13, vamos explorar como a precisão técnica é, na verdade, a guardiã da ética.
FT 13 - A Verdade Factual como Escudo: O Caso do BNDES
Na crônica anterior, falamos sobre a fragilidade da "verdade factual". Hoje, quero ilustrar como essa verdade — o registro frio e honesto da realidade — foi o que salvou projetos monumentais e a minha própria integridade profissional na época da Siemens KWU.
A Engenharia contra a "Opinião"
No gerenciamento do índice de nacionalização do BNDES, vivíamos sob uma pressão constante. Tínhamos uma meta clara: garantir que 60% do valor dos equipamentos da usina fossem produzidos em solo brasileiro. Aqui, a verdade factual não era uma questão de interpretação ou narrativa política; era uma questão de números, notas fiscais e componentes físicos.
Muitas vezes, havia o desejo (ou a pressão) de "ajustar" as expectativas para evitar as multas draconianas de 100 mil dólares por dia. Mas é aqui que o pensamento crítico de Arendt se torna prático. Se eu me tornasse um mero "burocrata medíocre", apenas cumprindo ordens e assinando papéis sem conferir a realidade, eu estaria abrindo as portas para a banalidade do mal — permitindo que o erro se tornasse o padrão sob o pretexto da obediência.
O "Expediting" como Testemunho do Fato
Para garantir a verdade factual, eu praticava o Expediting. Eu não ficava apenas atrás de uma mesa; eu ia às fábricas, via os transformadores serem enrolados, conferia as chapas de aço e os componentes. Esse ato de "presenciar" é o que Arendt chama de testemunho.
Na engenharia, se o fato é que um componente não está pronto, nenhuma "opinião" favorável ou relatório maquiado mudará o impacto disso no cronograma da obra. A verdade factual é o limite da nossa liberdade: você pode ter a opinião que quiser, mas não pode mudar o fato de que a peça não existe. Minhas anotações manuais, que mais tarde viraram "bíblias" em processos de auditoria, eram o registro sagrado da realidade.
O Serviço Público e a Terapia da Realidade
Hoje, no SAIS TFD, vejo a mesma dinâmica. Quando um dado é lançado no SISREG, aquele registro deve ser uma verdade factual sobre a saúde de um cidadão. Manipular ou ignorar esse fato para "cumprir metas" seria desumanizar o paciente.
Seja medindo o índice de nacionalização de uma usina ou a fila de uma cirurgia, a minha Voz Interior sempre diz a mesma coisa: os fatos são o solo onde a ética pisa. Quando abdicamos da verdade dos fatos, perdemos a nossa capacidade de julgar e, consequentemente, a nossa humanidade.
Aos jovens da era da IA: a máquina pode processar dados, mas ela não tem o compromisso moral com a verdade factual. Esse compromisso é, e sempre será, exclusivamente humano.
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