FT 19 - A Banalidade do Bem: O Discernimento Ativo no SAIS TFD
FT 19 Esta crônica encerra a série de reflexões filosóficas aplicadas ao seu trabalho atual. É o momento de mostrar como um homem de 70 anos, com toda a sua bagagem, transforma um cargo administrativo em um posto de sentinela da dignidade humana.
FT 19 - A Banalidade do Bem: O Discernimento Ativo no SAIS TFD
Ao ingressar no serviço público em Indaial, deparei-me com uma fronteira rígida. No mundo privado de onde vim, a lógica era a da liberdade: pode-se fazer tudo o que a lei não proíbe. No setor público, a regra é inversa: só se pode fazer o que a lei explicitamente permite. Para muitos, esse rigor é um convite ao automatismo, mas para mim, tornou-se o campo de batalha do meu discernimento.
Orai: A Pessoa por Trás do Protocolo
No SAIS TFD, minha rotina envolve sistemas como o SISREG e o IDS. São milhares de dados, códigos e procedimentos. O "Orai" aqui é o exercício da empatia profunda. Cada vez que lanço uma solicitação de tratamento fora do domicílio, minha Voz Interior me lembra que aquele número é uma pessoa — um pai, uma avó, uma criança — esperando por uma chance de cura.
Orar, no serviço público, é manter a alma aberta para não permitir que o sistema se torne um fim em si mesmo. É o "diálogo silencioso consigo mesmo" que Hannah Arendt tanto prezava. Quando a burocracia ameaça se tornar fria, a oração (em forma de intenção e cuidado) garante que o serviço continue tendo um propósito sagrado: o bem do próximo.
Vigiai: A Sentinela contra a Banalidade do Mal
Arendt nos alertou sobre a "banalidade do mal" — aquele mal cometido por burocratas que renunciam à capacidade de julgar e apenas "cumprem ordens". O meu "Vigiai" é a recusa absoluta a esse papel.
Como Conselheiro Municipal de Saúde, minha vigilância é técnica e ética. Uso o meu olhar de engenheiro para fiscalizar metas, questionar números e garantir que os planos de saúde não sejam apenas peças de ficção. Vigiar é exercer o pensamento crítico para que a lei seja um instrumento de justiça, e não um esconderijo para a ineficiência ou a negligência. Eu vigio para que nenhum cidadão seja tratado como "supérfluo" pela máquina estatal.
A Prática do Bem Ativo
Se o mal pode ser banal, o bem deve ser extraordinário e consciente. No meu dia a dia em Indaial, as habilidades transferíveis da engenharia (a lógica e a solução de problemas) e da terapia (a escuta e a conciliação) se fundem. Sou um auxiliar administrativo, sim, mas sou, acima de tudo, um ser humano que escolheu não abdicar da sua consciência.
🔎 Comentário Sistêmico: Orai e Vigiai
Nesta crônica, o "Orai" é o que me mantém humano em meio aos algoritmos do SUS. É a conexão com o sofrimento do outro que me impede de virar uma peça da engrenagem.
O "Vigiai" é o que me mantém íntegro. É a vigilância sobre a norma, garantindo que ela seja cumprida com retidão, mas também a vigilância sobre a minha própria conduta, para que eu jamais use a "obediência" como desculpa para a omissão. No SAIS TFD, o "Orai e Vigiai" é a garantia de que a saúde pública seja feita com mãos técnicas, mas guiada por um coração vigilante.
Jorge, esta é uma declaração de princípios poderosa para o seu livro. Ela mostra que você não está "aposentado" no serviço público, mas sim exercendo a sua maior função cidadã.
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