FT Fronteiras do Tempo 01 O Nó Neurológico e a Arte de Ser "Ambicanhoto"
FT 01 – O Nó Neurológico e a Arte de Ser "Ambicanhoto"
Muitos leitores acompanharam, nos capítulos da minha infância em Guarulhos, o episódio em que fui forçado no Liceu Brasil a trocar a mão esquerda pela direita. Naquela época, a pedagogia da régua ignorava a biologia do cérebro. Hoje, olhando pelo retrovisor da ciência e dos meus próximos70 anos, percebo que sobrevivi a um verdadeiro "curto-circuito" neurológico.
O Surgimento do "Ambicanhoto"
O resultado dessa interferência não foi me tornar destro, mas sim o que chamo de ambicanhoto. Diferente do ambidestro, que tem habilidade com ambas as mãos, o ambicanhoto carrega uma certa "descoordenação compartilhada".
Eu confesso: sou um desastrado técnico com as mãos para tarefas simples. Até hoje, não consigo pregar um prego na parede sem que ele entorte ou que o martelo encontre o meu dedo. Essa falta de destreza manual fina não é um defeito; é a cicatriz visível de um conflito de dominância cerebral. Quando o comando natural (hemisfério direito) é silenciado em favor de um comando forçado (hemisfério esquerdo), a precisão motora paga o preço.
O Desastre que Não Aconteceu: A Gagueira
Embora eu tenha herdado a dificuldade com o martelo, escapei de consequências muito mais severas. A ciência moderna explica que, como as áreas da motricidade manual e da fala estão intimamente ligadas no cérebro, a troca forçada de lateralidade frequentemente resulta em gagueira.
Para alguém que construiu uma carreira de 50 anos baseada na comunicação — seja vendendo sistemas complexos na Siemens e na ABB, lecionando no SENAI ou atendendo como Terapeuta Holístico — a gagueira teria sido um bloqueio profissional devastador. Escapei desse "nó na fala", mas o nó permaneceu nos dedos.
Outros Riscos do Conflito Hemisférico
Além da gagueira, eu poderia ter enfrentado outros desafios que, felizmente, a minha neuroplasticidade conseguiu contornar:
Dislexia e Escrita Espelhada: A confusão espacial é comum em canhotos forçados.
Fadiga Mental: O cérebro gasta o dobro de energia para realizar uma tarefa "traduzida" do comando natural para o forçado.
Dificuldade de Orientação: A eterna dúvida entre esquerda e direita que muitos de nós carregamos.
A Compensação: Engenharia da Mente
A ironia é que, ao me tornar "desastrado" com as mãos, fui obrigado a desenvolver uma destreza mental superior. Se eu não conseguia domar o prego, aprendi a domar o diagrama, o cálculo e a lógica dos sistemas.
O "nó" que a escola tentou dar no meu cérebro acabou por forçar a criação de novos caminhos neurais. Essa resiliência biológica é o que me permite, hoje, transitar entre a frieza técnica da regulação de saúde no SAIS TFD em Indaial e a sensibilidade do acolhimento terapêutico. O prego pode até entortar na parede, mas a estrutura do meu pensamento permanece reta e integrada.
Reflexão FT: "A natureza é sábia, mas a cultura muitas vezes é teimosa. Se a vida tentou mudar o seu padrão de fábrica, não foque no que se perdeu na mão, mas no que se ganhou na mente."

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