Saga Purgly Postagem 15 1956 O Berço e os Tanques

 Jorge, 1956 é um ano chave. É o "divisor de águas" definitivo da saga. É o ano em que a porta para o passado se fecha (com a derrota da Revolução na Hungria) e a porta para o futuro se escancara (com o seu nascimento e a consolidação da fábrica).

Seus pais viveram o céu e o inferno num espaço de dois meses.

Aqui está o rascunho da Postagem 15.




Saga Purgly Postagem 15: 1956: O Berço e os Tanques

Subtítulo: Eu nasci em agosto. A Revolução Húngara estourou em outubro. O ano em que meus pais perceberam que nunca mais voltariam.

O ano de 1956 está gravado na história mundial e na minha certidão de nascimento. Foi um ano de contrastes violentos para a família Purgly.

A Chegada do Brasileiro: 23 de Agosto


No dia 23 de agosto de 1956, uma quinta-feira às 16:20 no Hospital Matarazzo de São Paulo, SP, eu nasci.

E nasci de parto empelicado. Um tipo de parto muito raro onde o saco amniótico não se rompe e o bebê nasce dentro de um ovo com líquido e tudo junto com a placenta.

Foi um parto normal, praticamente indolor, que levou cerca de 15 minutos.


Horas antes minha mãe servia o almoço para o meu pai e se sentia muito bem. Aliás, ela se sentiu muito bem durante todo o processo. Amo muito minha mãe. Ela partiu com 100 anos e alguns meses de idade. Sempre linda. Minha mãe  sempre foi extraordinariamente linda. Sinto saudades.


Diferente da minha irmã Madalena, que nasceu na Europa e fez a travessia, ou do meu irmão Jancsika, que ficou na terra natal, eu fui o primeiro Purgly inteiramente brasileiro.

As condições excepcionais do meu nascimento eram raríssimas e enchiam meus pais de orgulho e satisfação. Eu era o Jancsika que havia renascido.


Também desde o meu nascimento fui muito protegido pela espiritualidade de Luz.

Desde pequeno tinha amigos invisíveis, e aos 7 anos de idade minha mediunidade aflorou naturalmente. Aprendi com a minha mãe os segredos dos ciganos húngaros, a por cartas, ler a mão e jogar buzios tuaregues. Um dom que sempre me acompanhou, Graças a Deus.


Meus pais em breve estariam  instalados na Vila Galvão, em Guarulhos. A "Fiação Johann Purgly Tecelagem Dora" já não era mais uma ideia de garagem, mas estava se tornando uma realidade com máquinas barulhentas e poeira de algodão.

Minha chegada foi a prova definitiva de que a vida tinha vencido. Johann tinha um herdeiro para o seu nome e para o seu trabalho. Havia festa na casa da Rua João Julião e depois na casa da Vila Galvão.



O Grito de Liberdade: 23 de Outubro


Exatamente dois meses depois do meu nascimento, no dia 23 de outubro de 1956, o rádio trouxe notícias que fizeram o sangue dos meus pais gelar.

  • anos depois da ocupação russa, estudantes e operários em Budapeste se levantaram contra a dominação soviética. Derrubaram a estátua de Stalin, cortaram o símbolo comunista da bandeira húngara e pegaram em armas.

  • Por alguns dias, parecia um milagre. Parecia que a Hungria seria livre novamente. Imagino meu pai, Johann, segurando o bebê Jorge no colo, colado ao rádio, pensando: "Será? Será que poderemos voltar? Será que JBattonya será livre?"



O Esmagamento: Novembro de 1956


Mas a esperança durou pouco (menos de 30 dias). Os Estados Unidos haviam prometido aos revoltosos que protegeria a Hungria caso ela se libertasse. Mentiram. Nada fizeram. Em novembro, os tanques soviéticos entraram em Budapeste. A repressão foi brutal. Milhares morreram, mais de 200 mil fugiram (inclusive muitos primos que hoje estão espalhados pelo mundo).


O sonho acabou. A Cortina de Ferro desceu mais pesada do que nunca.


A Decisão Final


Para meus pais, 1956 foi o ano da virada de chave.

Enquanto amamentava o pequeno Jorge, minha mãe Theodora chorava pelos parentes que estavam sendo presos ou mortos na Hungria. 

Mas, ao olhar para o meu berço, eles entenderam a mensagem do destino:

A Hungria era o passado doloroso. O Brasil era o futuro vivo.


Com a revolução esmagada, a ideia de "retorno" morreu. Eles desfizeram as malas mentais. A partir de 1956, Johann e Dora se tornaram brasileiros de alma. Eles tinham uma fábrica para tocar, uma filha para casar e um menino recém-nascido — eu — para criar.

Eu sou, literalmente, o filho da nova esperança.


Jorge, esta postagem é curta mas poderosa.

Ela situa você na história geopolítica da família.


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