Saga Purgly Postagem 18: A Menina que Trouxe a Europa na Mala

 Saga Purgly Postagem 18: A Menina que Trouxe a Europa na Mala



Foto: Madalena, minha irmã e eu.



Saga Purgly Postagem 18 (primeira parte): O Nome Gigante, o "Diabo" Benedito e a Zoraide

Subtítulo: Minha irmã Madalena, o nome que ocupava duas linhas e como uma expressão popular brasileira me salvou de ser Benedito.

Eu fui o primeiro Purgly "inteiramente brasileiro", mas antes de mim, houve ela. Minha irmã Madalena. Para o cartório brasileiro atual, após o casamento, ela é Madalena von Ungern-Sternberg. Mas, na origem, ela carregava um peso histórico na certidão de batismo: Magdolna Teodora Emilia Janka Benedictina Purgly de Jószás.

A Nobreza como Castigo Escolar 

Madalena sempre foi muito inteligente e aplicada. Estudou em São Paulo e se formou técnica em contabilidade com louvor, profissão que exerceu com brilhantismo por muitos anos. Mas a escola tinha um tormento: a hora da prova. Enquanto as outras crianças escreviam "Ana Silva" ou "Maria Santos", minha irmã tinha que preencher o cabeçalho. Ela odiava aquele procedimento. O nome Magdolna Teodora Emilia Janka Benedictina Purgly de Jószás nunca cabia numa linha só. Ela precisava de duas linhas inteiras apenas para se identificar. Além disso, havia a confusão dos sobrenomes. Pela tradição húngara, nosso sobrenome principal é Purgly; "de Jószás" é o indicativo de origem (o título da terra). Mas no Brasil, a ordem confundia tudo, e muitas vezes a chamavam de "Joszas", o que a irritava profundamente.

O Caso "Benedito" e a Zoraide 

Essa confusão de nomes quase sobrou para mim. Pela tradição da família, eu, como filho homem, deveria receber o nome equivalente ao "Benedictina" dela: Benedek. Traduzindo para o português: Benedito.

Aí entrou em cena uma figura que mudou a minha vida e o meu nome: a Zoraide. Zoraide era nossa empregada doméstica. Ela trabalhou conosco por muitos anos e foi, na prática, minha preceptora de "brasilidade". Enquanto meus pais falavam húngaro, foi a Zoraide quem me ensinou a falar português em tenra idade. Mas a influência dela foi além da língua. Zoraide era da Umbanda. Embora na casa dos meus pais católicos/luteranos conservadores isso fosse proibido, ela me iniciou secretamente nos mistérios da espiritualidade brasileira. Eu passava o dia na barra da saia dela, perguntando tudo, e ela me contava coisas sobre o mundo espiritual que meus pais jamais poderiam imaginar que existissem.

"Será o Benedito?"

Zoraide tinha o costume de usar uma expressão popular antiga quando algo sumia ou dava errado em casa: — Vixe! Será o Benedito?

Minha mãe, Theodora, ouvindo aquilo repetidamente, um dia perguntou com seu sotaque carregado: — Zoraide, quem é esse Benedito? Zoraide, na inocência da explicação, respondeu: — Ah, Dona Dora, o Benedito é o diabo, é o coisa-ruim que esconde as coisas.

A reação da minha mãe foi imediata e definitiva: — Dane-se a tradição! O meu filho não vai ter nome de diabo. Benedito não!

E foi assim, graças à Zoraide e ao folclore brasileiro, que escapei de ser Benedito. Fui registrado como Jorge Luis Joszas de Purgly. O "Purgly" foi jogado para o final, ao estilo brasileiro, e o "Joszas" virou nome do meio. Ficou estranho para a grafia húngara, mas perfeitamente aceitável para o Brasil. E, o mais importante: livre do "Benedito".

A Fusão de Mundos

Madalena e eu somos isso: a tentativa de caber no Brasil. Ela, lutando com duas linhas de nome na prova de contabilidade. Eu, sendo salvo por um ditado popular e aprendendo Umbanda escondido na cozinha. Duas crianças nobres aprendendo a ser brasileiras na prática.


Jorge, ficou excelente. A história da Zoraide é um gancho perfeito para explicar, no futuro, a sua mediunidade e o seu sincretismo religioso.


Jorge, a história da Zoraide é fascinante porque ela traz uma interpretação popular e mística da expressão, mas a origem histórica mais aceita pelos estudiosos da língua é, na verdade, política.

Existem duas versões principais. Veja como a "voz do povo" (Zoraide) e a "voz da história" se encontram:

1. A Origem Política (A Mais Famosa)

A teoria mais documentada remete à década de 1930, em Minas Gerais, durante a Era Vargas. Quando o governador de Minas Gerais, Olegário Maciel, faleceu em 1933, abriu-se uma disputa ferrenha pela sucessão. O presidente Getúlio Vargas mantinha o mistério sobre quem seria o escolhido (o interventor). Um dos candidatos, que corria por fora e não era o favorito, era o jornalista e político Benedito Valadares. A demora e o segredo eram tantos que o povo nas ruas de Belo Horizonte começou a perguntar com ironia e suspense:

"Será o Benedito?"

Quando Vargas finalmente escolheu Benedito Valadares (para surpresa de todos), a expressão pegou. Ela passou a ser usada sempre que havia uma dúvida cruel, um mistério demorado ou uma surpresa. Com o tempo, virou sinônimo de algo difícil de resolver ou uma situação inusitada.

2. A Origem Popular/Religiosa (A Versão da Zoraide)

Aqui entra a sabedoria da Zoraide e a conexão com o "Diabo". A palavra "Benedito" vem do latim Benedictus, que significa "Abençoado". No falar popular antigo, existe o hábito de usar eufemismos (palavras substitutas) para não chamar o "coisa-ruim" pelo nome.

  • Assim como se diz "O Cão", "O Tinhoso", "O Encardido", em algumas regiões usava-se nomes sagrados de forma irônica ou para repreender um malfeito.

  • Quando algo sumia (como você relatou) ou dava errado, dizia-se "Será o Benedito?". Nesse contexto, "Benedito" era um apelido para um espírito zombeteiro, um duende ou o próprio diabo que estava pregando uma peça.

Conclusão: A Zoraide estava certíssima dentro da cultura popular e folclórica dela! Para ela, "Benedito" era o causador dos problemas (o diabo/zombeteiro). Sua mãe, Theodora, com seu instinto protetor (e talvez supersticioso), fez muito bem em garantir que você fosse Jorge (o guerreiro) e não Benedito (que, naquela cozinha, era sinônimo de confusão).

É uma expressão que nasceu na política, mas ganhou vida própria na boca do povo e na Umbanda da Zoraide.


Jorge, o nome Zoraide tem uma origem muito bonita e antiga, que combina perfeitamente com a figura mágica que você descreveu.

A origem é Árabe.

Vem de Zoraida (ou Zurayda), que tem significados muito poéticos:

  1. "Mulher cativante" ou "Encantadora".

  2. Alguns etimologistas também associam a "Graciosa" ou "Aquela que tem graça".

Curiosidade Literária: O nome ficou muito famoso no mundo ocidental (Espanha e Portugal) através do livro Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Na história, há uma personagem chamada Zoraida, uma moça moura (árabe) belíssima e misteriosa que decide fugir para terras cristãs.

A Conexão com a sua História: O significado "Cativante" ou "Encantadora" veste como uma luva na sua Zoraide. Afinal, ela "cativou" a atenção do menino Jorge, encantando-o com histórias, ensinando a língua portuguesa e introduzindo-o aos mistérios da espiritualidade.

Ela fez jus ao nome: foi a mulher que trouxe graça e encanto para dentro de uma casa onde a disciplina europeia imperava.

Podemos seguir para a Postagem 19 e ver como o Johann e a Theodora tentavam manter a ordem com esse menino influenciado pela Zoraide?

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