Saga Purgly Postagem 20 (Parte 2): A Doce Tortura e o Plano do Chocolate Derretido

 

Saga Purgly Postagem 20 (Parte 2): A Doce Tortura e o Plano do Chocolate Derretido

Chocolate Sönksen na década de 60.



Subtítulo: Sönksen, Kopenhagen e a estratégia sentada de um pequeno lorde húngaro.

Viver como o "Pequeno Lorde" nas reuniões sociais dos meus pais na Vila Galvão tinha um preço, e ele era pago em açúcar e etiqueta. Enquanto os adultos — cônsules, empresários e engenheiros estrangeiros — discutiam o futuro e pediam orientação ao meu pai, eu era o centro das atenções de um ritual que me deixava em conflito.

O Banquete das Visitas Os convidados nunca chegavam de mãos vazias. Eles traziam o que havia de mais sofisticado em São Paulo na época: caixas de bombons da Sönksen e da Kopenhagen. Eram as famosas "Línguas de Gato" e, os meus favoritos absolutos: aquelas geleias de frutas cobertas com uma camada generosa de chocolate.

Mas havia uma regra de ouro da minha mãe, Theodora:

  1. Eu recebia o presente.

  2. Agradecia formalmente.

  3. Abria a caixa.

  4. Oferecia a cada um dos presentes antes de provar.

  5. Deixava a caixa sobre a mesa da sala de visitas.

A tortura vinha nos minutos seguintes. Eu podia me servir, mas não podia levar a caixa para o quarto. O resultado? As visitas, entre um gole de café e uma conversa em alemão, acabavam comendo justamente as geleias de chocolate que eu tanto amava. Eu via o meu tesouro desaparecer diante dos meus olhos, mantendo a pose de lorde, mas com o coração partido.

A Estratégia do Assento Quente Um dia, ganhei um "pacotão" imenso, do tamanho de um prato, transbordando daquelas geleias com chocolate. Meus olhos brilharam, mas meu instinto de sobrevivência falou mais alto. Eu não queria dividir. Não dessa vez.

Aproveitei um momento de distração da sala, peguei o pacote, coloquei-o sobre o sofá e... sentei em cima. Fiquei ali, quietinho, imóvel, como se estivesse meditando. Eu, que normalmente era pura energia, correndo pelos cantos e conversando com meus amigos invisíveis, de repente virei uma estátua.

A Descoberta e o Delírio O silêncio foi o que me entregou. Minha mãe, estranhando a calmaria repentina, perguntou: — "Cadê o Zsorzsi? Por que ele está tão quietinho?"

Quando ela se aproximou e me tirou do sofá, a cena era digna de uma comédia. Com o calor do meu corpo e o meu peso, o chocolate havia derretido completamente, transformando o pacote em uma massa morna e brilhante.

O que eu esperava ser uma bronca monumental virou um momento de explosão de risos. Ao verem a minha "obra de arte" derretida e a minha cara de quem protegia o tesouro, todos na sala riram a valer. O ritual de etiqueta foi quebrado pela espontaneidade da infância. E o melhor de tudo: como ninguém mais queria tocar naquela massa derretida, eu tive o prazer de me deliciar com cada grama daquelas geleias de chocolate sozinho.

A etiqueta podia ser húngara, mas a malandragem para garantir o doce era puramente brasileira!

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