Saga Purgly Postagem 20 Zsorzsi na Escola – O Lorde, o Xixi e o "Sinistro"
Saga Purgly Postagem 20: (Parte 1) Zsorzsi na Escola – O Lorde, o Xixi e o "Sinistro"
Subtítulo: Entre a obediência cega e o despertar do moleque brasileiro: as duras lições do Liceu Brasil.
Entrar no Jardim de Infância do Liceu Brasil foi, para mim, entrar em um território estrangeiro. Em casa, eu era o Zsorzsi. Falava o húngaro da família e o português que a Zoraide me ensinava entre uma história e outra na cozinha. No portão da escola, eu era o "alemão".
A Lição do Xixi: O Preço da Obediência
Eu era uma criança extremamente obediente. Em casa, a palavra dos meus pais era lei. Levei essa rigidez para a sala de aula, mas o mundo lá fora tinha regras que eu ainda não entendia. Um dia, senti vontade de fazer xixi. Pedi permissão à professora, e ela disse "não". Pois bem, se a autoridade disse não, eu segurei. Segurei até não aguentar mais e acabar molhando a calça ali mesmo. Meus pais foram chamados e fui levado para casa, humilhado.
A professora disse que eu deveria ter insistido ou desobedecido. Foi meu primeiro choque de realidade: descobri que, fora de casa, a obediência cega podia ser uma armadilha.
O "Sinistro" e a Batalha da Mão Direita
Outro grande desafio foi a minha alfabetização. Eu nasci canhoto, mas para o meu pai, Johann, isso era inaceitável. Ele dizia que ser canhoto era coisa do "sinistro", algo errado. Fui forçado a aprender a escrever com a mão direita. Minha letra era horrível. Lembro-me de gastar cadernos e mais cadernos de caligrafia, tentando domar uma mão que não era a minha "natural". Foi uma tortura silenciosa, uma tentativa de moldar minha essência para caber em um padrão europeu rígido.
Do Lorde ao "Fugitivo" do Alemão
Aos 10 anos, minha rotina era intensa. Depois do Liceu, eu devia ir para a aula de Alemão com uma senhora. Mas o "gingado juvenil" brasileiro começou a falar mais alto. Após ser repreendido naquela aula, passei a "cabular". Em vez do alemão, eu buscava o campinho de futebol. Minha mãe, Theodora, logo descobriu. A sentença foi curta: nunca mais pagaria cursos de idiomas para mim. E assim se encerrou meu aprendizado formal de línguas, mas abriu-se o portal para a minha integração definitiva com a cultura das ruas de Guarulhos.
O Skoda Vermelho e os Chocolates da Tortura
Minha casa era um consulado informal. Meu pai foi o primeiro húngaro no Brasil a ter um automóvel — um Skoda vermelho que era o orgulho da tecelagem. Nos fins de semana, nossa sala de visitas ficava cheia de estrangeiros, cônsules e empresários em busca da orientação do meu pai. Estas pessoas ficavam para o jantar e a minha mãe adorava servir bem. Ela chegou a ter duas empregadas para cozinhar e serviço de pratos para 100 pessoas além de um grande faqueiro de prata. Foi a época em que eu vi a minha mãe mais feliz. Eu era o "Pequeno Lorde" daquelas reuniões. Não havia crianças, apenas adultos sérios. Eu adorava recebê-los porque ganhava muitos chocolates, mas era uma tortura: eu tinha que manter a pose de lorde enquanto tudo o que eu queria era correr para a Rua Dom Pedro II, depois Rua Pirapozinho, (com o passar do tempo, a rua mudou de nome) e ser apenas o Jorge.
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