Saga Purgly Postagem 21 O Barão da Vila Galvão Honra, Eletrônica e um Uniforme Gigante
Saga Purgly Postagem 21: O Barão da Vila Galvão: Honra, Eletrônica e um Uniforme Gigante
Subtítulo: O erro que selou uma amizade, o "bullying" que virou orgulho e o despertar do gênio da eletrônica no Colégio Claretiano.
Toda grande história de amizade tem um ponto de partida. A minha com Emilio José Juan Carlos Cadavid Delgado começou com um erro, uma lição de honra e um abraço fraternal que duraria décadas.
A Lapiseira e a Palavra de Honra
Conheci o Emilio no Liceu Brasil. Ele era filho de espanhóis, e seu pai era desenhista projetista. Para mim, o estojo do Emilio era um portal para outro mundo: réguas de acrílico, lápis de todas as durezas e papéis especiais. Eu sempre amei materiais de escritório, mas o que me fascinou de verdade foi uma lapiseira.
Num impulso infantil, durante o recreio, "suprimi" a lapiseira da carteira dele e a levei para casa. Foi a primeira e última vez que fiz algo assim. Minha mãe, Theodora, com seu olhar de águia, encontrou o objeto no meu bolso no minuto em que cheguei. Eu não menti. Contei tudo.
Ela me ensinou que furtar era uma mancha na alma e me fez dar minha palavra de honra de que nunca mais repetiria o ato. No dia seguinte, ela me levou à escola e esperou até a saída para que eu devolvesse a lapiseira à mãe do Emilio e pedisse desculpas a ele. O Emilio, com uma nobreza que vinha do sangue espanhol, me abraçou. Aquele gesto me conquistou. Tornamo-nos inseparáveis.
O Salto para o Claretiano
Quando o curso primário acabou, o Emilio me contou que iria para o Colégio Claretiano de Guarulhos. O antigo seminário estava se transformando em uma escola independente. Eu não queria perder meu amigo, então pedi ao meu pai para ser transferido também. Ele consentiu prontamente.
Minha mãe fez a matrícula e comprou o uniforme. Mas, com a mentalidade prática de quem já passara por crises, ela comprou roupas dez vezes o meu tamanho para que servissem até o fim da minha vida escolar. Enquanto meus colegas eram quase todos ricos e andavam impecáveis, eu me sentia um palhaço, perdido dentro de um pano que sobrava para todos os lados.
A Chegada das Meninas e o "Barão"
O Claretiano era apenas para rapazes, mas dois anos depois, abriu para meninas. A mudança foi drástica: os palavrões cessaram e o comportamento "indecente" dos adolescentes deu lugar a um desfile de modas. Eu, no entanto, continuava com meu traje ridículo, mas protegido por algo maior: minha história.
Um dia, incentivado pela professora de português, contei em sala sobre a fuga dos meus pais e mencionei que minha mãe era chamada de Baronesa. Um colega gritou: "Aê, Barão!". Ele pretendia ser pejorativo, um deboche. Mas, ao contar aos meus pais, eles — com a altivez húngara — consideraram aquilo um elogio. — "Fique feliz com isso, Jorge", disse minha mãe. Eu a amava e seguia tudo o que ela dizia. Aceitei o apelido de Barão, e ele me seguiu quase até a faculdade.
O CDF dos Eletrônicos
Enquanto as roupas sobravam, o conhecimento transbordava. Eu era considerado um "CDF". Meus amigos próximos e eu mergulhamos no mundo da tecnologia. Montávamos kits de eletrônica, rádios, amplificadores e até luzes rítmicas para os bailinhos.
Ali, entre os fios e as válvulas, eu estava seguindo os passos do meu pai inventor. O menino que sentava no chocolate para protegê-lo agora "sentava" nos livros e circuitos para construir o próprio futuro. O Claretiano não foi apenas uma escola; foi onde o Barão húngaro se transformou definitivamente no Engenheiro brasileiro.
"Hoje, ao escrever estas linhas, meus olhos se enchem de lágrimas. Embora eu tenha dito aos meus pais que estava tudo bem e tenha aceitado o apelido de 'Barão' por amor e obediência a eles, por dentro eu me sentia ferido. Aquele apelido soava para mim como um xingamento, uma forma de me ridicularizar por ser diferente, por usar roupas maiores que o meu corpo e por carregar uma história que ninguém ali entendia. Eu sorria por fora, para orgulhar minha mãe, mas por dentro, eu era apenas um menino que queria ser aceito pelo que era, e não por um título que só trazia solidão."
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