Saga Purgly Postagem 27 A coleção de selos (segunda parte)

 Saga Purgly Postagem 27 A coleção de selos (segunda parte)



Postagem 27: O Mundo em Miniatura — Ascensão e Queda de um Império de Papel

Para muitos, um selo é apenas um comprovante de postagem. Para o menino Jorge, na Vila Galvão, aqueles pequenos retângulos eram janelas para um mundo que eu ainda não conhecia, mas que já corria em meu sangue. Minha coleção de selos não era apenas um hobby; era o registro vivo da diáspora da minha família e das feridas da história.

A Janela de Dora para o Mundo

Minha maior "fornecedora" era minha mãe, Dora. Ela mantinha uma correspondência internacional intensa, e cada envelope que chegava trazia o cheiro de terras distantes. Os selos mais exóticos vinham da África, enviados pelo meu tio Lajos, que havia emigrado inicialmente para a Rodésia e Niassalândia (que mais tarde se tornaria o Malawi).

Eu via passar pelas minhas mãos as cores vibrantes da fauna africana e, logo em seguida, o contraste sóbrio dos selos europeus. Era um atlas geográfico que se montava no chão da sala.

Herança e Presentes: De Jancsika a Madalena

A coleção ganhou corpo de forma afetiva. Aos 10 anos, recebi um tesouro: minha irmã Madalena me deu sua própria coleção, trazida diretamente da Hungria. Ali no meio, sobreviviam selos que pertenceram ao Jancsika, meu irmão mais velho.

Minha irmã foi minha grande incentivadora, comprando selos lindíssimos em lojas especializadas no centro de São Paulo para me presentear. O que começou como uma herança de família se transformou em uma paixão que me acompanhou até o final do curso científico.

Lições de História e Economia: O Milhão de Marcos

Minha coleção guardava uma das lições mais brutais sobre a política e a economia do século XX: a Alemanha. Eu possuía selos de antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial.

  • O Rastro da Inflação: O que mais me impressionava eram os selos alemães da década de 20, recarimbados com valores de um milhão de marcos.

  • Ver um selo que originalmente valia centavos ser carimbado com cifras astronômicas era a prova física da inflação diária que destruiu nações. Ali, entre as pinças e o álbum, eu aprendi sobre o valor do dinheiro antes mesmo de entrar na faculdade.

O "Bafo" e a Bolsa de Valores da Escola

Na escola, a filatelia ganhava um tom mais lúdico. Os selos eram nossas "figurinhas". Eu tinha centenas de repetidos e participava de jogos de "bafo" e trocas com os colegas. Às vezes eu ganhava um lote inteiro na batida da mão; às vezes, perdia um exemplar raro. Era a nossa primeira experiência com negociação e risco.

O Fim de um Ciclo: De "Fortuna" a Presente

O tempo passou. Juntei mais de 5.000 selos em álbuns organizados com o rigor de um futuro engenheiro. Guardei-os por décadas, acreditando que deixaria uma fortuna para meus filhos, Jorge Luis e Daniel. Mas o mundo mudou de forma irremediável.

  • O Desinteresse: Para as novas gerações, o selo perdeu o sentido. O interesse dos meus filhos pela coleção foi zero.

  • A Desvalorização: Por volta de 2010, quando fui avaliar o que eu acreditava ser um tesouro financeiro, descobri que o mercado de colecionismo havia mudado. A "fortuna" não valia quase nada em termos monetários.

O Desapego em Blumenau

Foi então que tomei uma decisão de paz. Em vez de deixar aquele enorme volume ocupando espaço e acumulando poeira, decidi dar utilidade ao significado. Dei tudo de presente para a Dona Ursula, uma senhora aposentada de Blumenau que trabalhava com o Daniel na época.

Liberar aquele espaço físico foi, também, liberar um espaço na alma. A coleção cumpriu seu papel: me ensinou geografia, história, paciência e organização. No final, aprendi a maior lição de todas: as coisas mudam, e o valor real de uma memória não está no papel, mas na história que contamos sobre ela.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Como ler a mão

As 12 reencarnacoes de Emmanuel

Rede em apartamento com parede de alvenaria estrutural, pode?