Saga Purgly Postagem 32 na Siemens Icotron
Saga Purgly Saga 32 na Siemens Icotron
Esta postagem é um marco na sua biografia, Jorge.
Ela registra a transição do menino que sonhava
com as máquinas dos Thunderbirds para o engenheiro que
, nos bastidores da Icotron (Grupo Siemens),
ajudou a construir a infraestrutura tecnológica do Brasil.
O seu relato é uma aula de estratégia de marketing técnico
e um registro histórico da era de ouro das telecomunicações brasileiras.
Postagem 32: Da Ficção à Realidade Técnica — O Mundo dos Cartões Telefônicos
Em 1985, minha jornada deu um salto definitivo para o epicentro da tecnologia. Entrei na Icotron S/A, a gigante de componentes eletrônicos do Grupo Siemens, como Chefe de Produtos. Minha missão era vasta e fascinante: gerenciar o marketing dos setores de Telecomunicações, Automotivo e Informática.
Eu era o elo entre a inovação alemã e a produção nacional, responsável pela importação de ferrites e sensores da Siemens, pelo desenvolvimento de semicondutores e pelos capacitores plásticos que seriam o coração de milhões de aparelhos.
A Estratégia "Siemens Inside" no CPQD
Um dos meus maiores desafios era introduzir no mercado brasileiro os capacitores Vielschichtko Rastermass 5 (RM5) de poliéster em caneca plástica. A oportunidade de ouro estava em Campinas, no CPQD Telebras.
Quinzenalmente, eu visitava o Centro de Pesquisas com um objetivo claro: garantir que nossos componentes estivessem na Lista de Componentes Qualificados (LQC). Minha tática era simples e eficaz: eu fornecia todas as amostras necessárias para que os protótipos da Telebras nascessem com nossos componentes. Se o protótipo funcionava com Siemens, a produção em série viria depois "como xixi na cama" — as vendas fluíam naturalmente para fabricantes como Icatel e Daruma.
A Revolução do Orelhão: Adeus às Fichas, Bem-vindo ao Cartão
Naquela época, o sistema de telefonia pública enfrentava um problema grave: o furto constante das caixas-cofre de fichas nos orelhões. O desafio era eliminar o dinheiro físico do aparelho.
Surgiu então a patente do cartão magnético da Telebras. O grande trunfo não era apenas a segurança, mas o potencial de marketing das imagens nos cartões. Tive a felicidade de assegurar que 14 capacitores Rastermass 5 fossem utilizados em cada novo orelhão desde a sua concepção. Multiplique isso pelos milhões de orelhões instalados e você terá uma ideia do volume recorde que alcançamos.
Eu via a tecnologia se tornar realidade não apenas nos orelhões, mas em centrais telefônicas e aparelhos de Telex — muito antes da era da internet discada, dos BBS ou do Wi-Fi.
Diversidade Técnica: Do Asfalto ao Espaço
Minha atuação na Icotron não parava no telefone:
Automotivo: Fabricávamos capacitores de ignição eletrônica para a Bosch e Magneti Marelli. Eu participava ativamente da Associação de Engenharia Automotiva (AEA), discutindo o futuro da eletrônica embarcada.
Informática: Sob a "Reserva de Mercado" da SEI, focávamos em componentes para fontes chaveadas.
Aeronáutica e Satélites: Atendia fabricantes de receptores de satélite e colaborava com o centro de desenvolvimento do ITA em São José dos Campos.
Uma Vida Rica e Divertida
O trabalho era intenso, mas a recompensa vinha em forma de reconhecimento e celebração. Ganhei um prêmio da MSC (Microwave Semiconductor Company), uma empresa da Siemens em New Jersey, e tive o prazer de visitar a fábrica nos Estados Unidos. Além disso, as viagens constantes para a Alemanha mantinham meu olhar sempre no horizonte tecnológico.
E, claro, sabíamos celebrar. Todo mês, ao batermos os recordes de vendas, o destino certo eram as choperias da Zona Sul de São Paulo, como o lendário Zur Altenmühle. As festas da Icotron eram famosas: desde as festas juninas familiares até os sofisticados jantares de Natal exclusivos para os funcionários.
Na Icotron, eu não era apenas um engenheiro; eu era parte de uma engrenagem que movia o progresso do Brasil, com um pé na precisão alemã e o outro na criatividade brasileira.
Reflexão Final
Olhando para trás, vejo que os cartões telefônicos foram para mim o que os selos foram na infância: uma janela para o mundo, mas desta vez, eu não era apenas o colecionador, eu era o arquiteto do sistema.
Jorge, esta postagem ficou excelente e muito detalhada! Ela faz o fechamento perfeito da sua fase profissional em São Paulo antes de outras aventuras.
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