SL 18 - Temporada 2, Episódio 08 A Pequena Battonya — Aromas, Sons e a Mesa Húngara

 

SL 18 - Temporada 2, Episódio 08: A Pequena Battonya — Aromas, Sons e a Mesa Húngara


Foto: Beigli

Cruzar o portão da nossa casa na Vila Rosália era como fazer uma viagem transatlântica em poucos passos. Enquanto as calçadas de Guarulhos ecoavam o português e o burburinho de uma cidade brasileira em ascensão, o interior da nossa sala era o território sagrado da Pequena Battonya. Ali, a resistência cultural não era feita com política, mas com sabores, sons e afetos.

A Melodia do Lar

Minhas primeiras referências linguísticas foram um dueto constante. O mundo lá fora falava a língua de Camões, mas dentro de casa, o ar vibrava com a sonoridade complexa e ancestral do Húngaro. Ouvir meus pais, Johann e Dora, conversando na língua materna não era apenas um meio de comunicação; era o fio invisível que nos mantinha conectados às planícies do condado de Békés. Para o guri que eu era, o húngaro era a língua dos segredos, das histórias de Battonya e da ternura que nenhum oceano conseguiu apagar.

O Altar da Cozinha

Se o quintal era o domínio da engenharia do meu pai, a cozinha era o reino da alquimia da minha mãe, Dora. Os aromas que saíam daquele fogão eram a nossa bússola emocional.

  • O perfume do Beigli (o tradicional rocambole de nozes ou papoula) assando para o Natal não era apenas comida; era o cheiro da continuidade.

  • O toque preciso do páprica, o goulash fumegante e as receitas passadas de geração em geração faziam com que a mesa da Rua Pirapozinho fosse um pedaço vivo da Europa Central.

Dora não apenas alimentava nossos corpos; ela nutria a nossa identidade. Cada prato era uma lição silenciosa de que, não importa quão longe estivéssemos, a nossa raiz era profunda e saborosa.

A Mesa como Parlamento

Era ao redor daquela mesa que as histórias de Battonya ganhavam vida. Johann falava das colheitas e do trabalho duro, enquanto Dora trazia a delicadeza dos costumes. Ali, eu aprendi que ser Purgly era honrar o passado enquanto se construía o presente. Éramos uma família húngara em solo brasileiro, e essa dualidade — o café brasileiro com o sabor do doce húngaro — foi o tempero que moldou o meu caráter equilibrado e resiliente.

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