Capítulo 14 - Natalia, A Aristocrata do Caos
Capítulo 14 - Natalia, A Aristocrata do Caos
Era o ano de 1979. São Paulo pulsava em um ritmo frenético, mas na nossa pequena quitinete na Rua da Consolação, quase esquina com a Avenida Paulista, o tempo parecia ter outra dimensão. Tininha e eu não tínhamos luxo, mas tínhamos o mundo pela frente.
Nossa mobília era um triunfo da criatividade sobre a escassez: caixas de tomate, que a Tininha revestiu meticulosamente com papel contact, serviam de armário e estante. Cozinhávamos em uma panela só, sobre um fogareiro equilibrado num botijão de 2kg, e dormíamos em um colchonete no chão. Eu trabalhava na Fone-Mat, ela na Imobiliária Consoante. Éramos jovens, improvisados e imensamente felizes.
Naquele tempo, não sabíamos nada sobre Dálmatas. Não sabíamos que eram cães de carruagem, maratonistas incansáveis. Nossa ignorância, contudo, foi desafiada pelo destino, que deslizou por baixo da porta em forma de um jornal gratuito: o City News.
Entre poucas notícias e muita propaganda, um anúncio garrafal nos chamou: "Lindos filhotes. Todas as raças. Venha conhecer." Fomos. E lá, um filhote de manchas pretas sobre fundo branco encantou a Tininha. Saímos de lá não com um cachorro qualquer, mas com uma entidade de nome nobre: Natalia of Miss R.
A chegada da aristocrata ao nosso "palácio de caixas de tomate" foi o início do caos. Na primeira noite, Natalia mostrou a que veio. Enquanto dormíamos, ela roeu os botões do meu pijama, destruiu meus sapatos e triturou tudo o que encontrou pela frente. O carpete, que cobria o chão da quitinete, virou seu banheiro particular. A situação tornou-se insustentável em menos de 24 horas.
Devolvê-la parecia a única opção sensata. Mas o coração da Tininha já tinha sido capturado. O criador, percebendo o impasse, nos propôs um acordo: a Natalia ficaria com ele temporariamente, até que nos mudássemos para uma casa em São Bernardo do Campo, que já estávamos planejando alugar.
Aí começou a primeira parte do meu martírio. Todas as noites, cansado do trabalho, eu ia com a Tininha visitar a cachorra na casa do dono do canil. A cena era sagrada: Tininha sentada no sofá, assistindo à novela com a Natalia aninhada no colo, alheia ao mundo. O vínculo só crescia, até que o criador nos trouxe uma notícia alarmante: a Natalia estava atrofiando. Ela precisava de espaço, precisava correr, e o canil dele em São Paulo não comportava aquela energia.
Tivemos que antecipar a mudança. Fugimos para São Bernardo do Campo numa operação de resgate para salvar as pernas da nossa "filha". Finalmente, tínhamos quintal. Mas foi aí que começou a segunda parte do martírio.
A Natalia desenvolveu um enjoo crônico por movimento. O vômito no carro era diário, pois todos os dias — rigorosamente todos os dias — eu precisava levá-la ao veterinário. O Dr. Walter Hato, um jovem recém-formado que atendia e morava nos fundos da clínica, tornou-se parte da nossa rotina.
As patologias da Natalia eram infinitas. Comprei uma casinha enorme para ela, tão grande que tive que dirigir segurando-a com uma mão para fora do carro e a outra no volante. Chegando em casa, a casinha não passava na porta. Tive que desmontar parafuso por parafuso e remontar no quintal. E para quê? A Natalia, teimosa como só um Dálmata sabe ser, abria as patas feito um gato e se recusava a entrar. Preferia dormir ao relento, o que lhe rendeu uma insolação e alergias de pele graves. Lá íamos nós de volta para o Dr. Hato.
Tivemos alergia à ração, infestação de carrapatos, a primeira e a segunda infestação de pulgas... Ela era desobediente, "burra" para comandos e uma máquina de gerar despesas. Chegou a um ponto em que não conseguia mais pagar as consultas. A solução? Tornei-me ajudante informal do veterinário, segurando animais e auxiliando nos procedimentos para abater a dívida, enquanto conversávamos sobre a criação de peixes lebistes reticularis que ele mantinha nos fundos.
A tensão máxima, porém, chegou com a gravidez da Tininha. A Natalia, sentindo a mudança, tornou-se ciumenta. Quando o nosso filho nasceu — o Jorge Luis, um menino lindo, forte e corado com 3.150g, no Hospital Sanitas —, a alegria veio acompanhada de medo. Um dia, esquecemos a porta da cozinha aberta. A Natalia correu para o quarto e pulou sobre o berço.
Aquilo foi a gota d'água. O risco era inaceitável.
Com o coração partido, tomamos a decisão. O Dr. Hato, que já nutria um carinho imenso pela cachorra (afinal, via-a todos os dias), aceitou a Natalia como um presente. Sabíamos que ela estaria em boas mãos, com espaço e cuidados médicos constantes. Voltei para casa sem ela, sentindo um misto de alívio pela segurança do bebê e tristeza pelo choro da Tininha.
O epílogo dessa história foi cruel. Semanas depois, passamos de carro em frente ao consultório. A Natalia estava no jardim. Ao ver a Tininha no vidro do passageiro, ela começou a uivar desesperadamente de um lado, enquanto a Tininha chorava convulsivamente do outro. Tratei de acelerar o carro, afastando-nos daquele som que partia o coração. Aquele uivo encerrou minha amizade com o Dr. Hato, pois nunca mais tive coragem de vê-lo.
Ali, selamos uma promessa: nunca mais teríamos outro animal de estimação. O custo emocional tinha sido alto demais. Durante anos, mantivemos a palavra. Mudamos para a Vila Rosália, em Guarulhos, e a casa permaneceu silenciosa. Foi preciso a violência de um assalto à nossa residência, muito tempo depois, para que o medo vencesse o trauma e abríssemos, novamente, as portas para um cão — mas essa é outra história.

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