Capítulo 15 A Porta Arranhada e a Dinastia do Amor

Capítulo 15 A Porta Arranhada e a Dinastia do Amor
Há quem diga que lugar de cachorro é no quintal. Na minha vida, porém, essa regra nunca existiu. Nossa casa não tinha trancas para o afeto. O limite entre o "lado de dentro" e o "lado de fora" era apenas uma formalidade, constantemente desafiada por patas ansiosas. Tudo começou com Bodri e Flika. Eles não eram apenas animais de estimação; eram os donos da casa, concedendo-nos a honra de viver com eles. O Bodri, nosso vira-lata sábio, e a Flika, a Fox Terrier elétrica que ganhei da minha irmã, viviam num trânsito constante. A trilha sonora da minha infância e juventude foi marcada pelo som rítmico das unhas arranhando a madeira da porta. Scrrritch, scrrritch. Era o sinal de "queremos sair". Minutos depois, o latido imperativo no batente: "au, au!" – a ordem expressa para entrar. E nós, humanos obedientes, abríamos a porta, vezes sem conta, servindo de porteiros para suas majestades. Lá fora, a guerra fria continuava. O Rintim, o cachorro do vizinho, era a nêmese do Bodri. Um vira-lata de porte médio, pelo liso e cor de caramelo — aquela cor universal dos cães brasileiros —, que parecia viver apenas para provocar. A cerca era a trincheira. De um lado, o Bodri defendendo a honra do lar; do outro, o Rintim latindo insultos caninos. Mas, finda a batalha, Bodri arranhava a porta e voltava para o sofá, com a tranquilidade do dever cumprido. Dessa união improvável entre a energia da Fox Terrier e a rusticidade do vira-lata, nasceu uma verdadeira dinastia. A casa se encheu de filhotes em épocas diferentes, uma loteria genética fascinante. Uns saíam lindos, com a elegância da mãe; outros, nem tanto, carregando o caos estético do pai. Lembro-me do Floki, uma figura curiosa com seus pelos longos e perpetuamente embaraçados, um "hippie" canino que parecia nunca ter visto uma escova, mas que transbordava carisma. E havia o Tipi. O Tipi, de pelo liso e mesclado, foi um capítulo à parte na nossa história familiar. Ele não apenas nasceu na família; ele escolheu sua pessoa favorita. Quando minha esposa, a Tininha, entrou em cena, o Tipi decidiu que o coração dele pertencia a ela. As visitas à casa dos meus pais ganharam um ritual sagrado. Era a Tininha quem assumia os cuidados do Tipi. Ela lhe dava banhos demorados e carinhosos, conversando com ele como se fosse gente. E havia o segredo deles: o chocolate. Eu sabia, todos sabíamos, que não era o ideal, mas o amor tem suas próprias regras. Ela trazia um pedacinho, um gesto de doçura proibida, e ele a olhava com uma devoção absoluta, abanando o rabo num ritmo que só ela provocava. O Tipi foi o elo que uniu ainda mais as nossas famílias. O tempo passou, os filhos — Jorge e Daniel — cresceram, e a vida nos levou a outro cenário. A inocência dos tempos de portas abertas foi quebrada quando nossa casa foi assaltada. A sensação de violação e insegurança pairou sobre nós. Precisávamos de proteção, mas o destino nos mandou um anjo disfarçado de fera. Foi assim que a B.B. entrou em nossas vidas. Ganhamos aquela Rottweiler de presente para aumentar a segurança, mas o nome que lhe demos já denunciava a falha no plano: ela era um bebê gigante. A B.B. redefiniu o que sabíamos sobre cães. Ela era quase humana. Havia uma inteligência no olhar dela, uma empatia que dispensava palavras. Ela não guardava apenas a casa; ela guardava as nossas emoções. Cada vez que pensamos nela hoje, a saudade é tão física que as lágrimas vêm aos olhos. Ela foi uma presença tão marcante, tão cheia de personalidade, que sua partida deixou um silêncio ensurdecedor nos corredores. Para tentar preencher aquele vazio imenso, vieram as sucessoras, a "equipe de consolo". A Ohana, outra Rottweiler, chegou para manter a linhagem de cães grandes, mas trouxe consigo uma mansidão que desarmava qualquer medo. Ela era a gentileza em forma de músculo. E, para completar a dupla improvável, veio a Huna. A Huna era uma Dachshund (o famoso "salsicha") que chegou até nós já adulta e muito magra, talvez carregando histórias tristes de antes. Mas, na nossa casa, onde a comida e o amor eram abundantes, ela floresceu — e arredondou. A Huna magricela transformou-se numa salsichinha gorda e feliz, rolando pela casa com a satisfação de quem finalmente encontrou seu lugar no mundo. A dupla Ohana e Huna, a gigante mansa e a pequena gulosa, nos fez sorrir novamente. Hoje, todos eles já partiram. A casa está mais silenciosa. Não há mais o arranhar na porta do Bodri, a eletricidade da Flika, o pelo emaranhado do Floki, o olhar apaixonado do Tipi para a Tininha, a humanidade profunda da B.B. ou as brincadeiras da Ohana e da Huna. Mas, no "lado de dentro" da nossa memória, todos eles continuam lá. Eles nos ensinaram sobre lealdade, sobre proteção e, acima de tudo, que uma casa só se torna um lar quando há alguém latindo para entrar e abanando o rabo quando a gente chega. A saudade é o preço que pagamos por ter vivido tanto amor, e é um preço que eu pagaria mil vezes de novo.

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