Capítulo 9 - Hungria, um país em extinção

Capítulo 9 - Hungria, um país em extinção
Acima mapa da Hungria em 1910 e abaixo, mapa da Hungria em 2025
Dizem que as nações são eternas, mas a história mostra que elas podem desaparecer. E a minha Hungria, a terra dos meus pais, luta silenciosamente contra o relógio. Ser húngaro é viver numa solidão geográfica e linguística. Nosso idioma não tem parentes próximos na vizinhança. Não somos latinos, nem germânicos, nem eslavos. Somos uma ilha. Se um húngaro cruzar a fronteira e falar sua língua materna, ninguém entenderá. Isso nos torna únicos, mas também nos torna vulneráveis. A "extinção" começou em 1920. O Tratado de Trianon foi uma cirurgia feita sem anestesia. De um dia para o outro, a Hungria perdeu 71% do seu território e 60% da sua população. Milhões de húngaros acordaram como cidadãos da Romênia, Eslováquia ou Sérvia. Foi o primeiro golpe mortal na demografia da nação. Mas hoje, o inimigo não desenha fronteiras com canetas diplomáticas. O inimigo é o berço vazio. A Hungria encolhe a cada ano. Morrem mais pessoas do que nascem. Os jovens emigram para o Oeste em busca de salários em Euro, deixando para trás aldeias silenciosas onde apenas os idosos guardam as tradições. E nós, a diáspora? Eu sou a prova viva desse processo. Meus pais eram húngaros puros. Eu sou o híbrido. Meus filhos, brasileiros. O idioma difícil, com suas 44 letras e vogais longas, vai se diluindo a cada geração. Eu ainda rezo o Pai Nosso em húngaro, mas será que meus bisnetos saberão dizer "Köszönöm" (Obrigado)? A Hungria corre o risco de se tornar uma Atlântida cultural: um reino maravilhoso que existe apenas na memória e nos livros de história. Por isso escrevo. Cada vez que conto a história da Condessa Rhédey, cada vez que explico o que é um Beigli ou falo da Revolução de 56, estou colocando um tijolo na muralha para impedir que ela caia. Um país só entra em extinção quando a última pessoa que o ama esquece dele. Enquanto houver um "Papai Noel Jorge" em Indaial lembrando de suas raízes, a Hungria vive. Pode ser menor no mapa, mas continua gigante no espírito.

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