Saga Purgly Postagem 13 O Navio de Bananas e as Picaretas para a Selva
Saga Purgly Postagem 13 O Navio de Bananas
e as Picaretas para a Selva
Subtítulo: O destino trocado por uma tosse, o "kit de sobrevivência" inútil
e a chegada ao Rio de Janeiro.
O destino da família Purgly quase foi os Estados Unidos.
Tudo estava preparado para embarcarmos num lindo transatlântico
rumo à América do Norte. Mas o destino, às vezes, se disfarça de imprevisto.
A Quarentena e a Escolha de Johann
Minha irmã Madalena já não era um bebê de colo;
tinha entre 6 e 7 anos. Justamente por estar nessa idade,
ela e minha mãe estavam no alojamento de mulheres e
crianças no campo de refugiados, quando estourou
um surto de tosse comprida (coqueluche).
O alojamento entrou em quarentena total.
Meu pai, Johann, estava liberado. Ele poderia ter embarcado
no transatlântico luxuoso e esperado a família em Nova York.
Mas ele recusou. Ficou no cais vendo o navio partir,
levando a chance de uma vida americana embora.
Ele não deixaria "as suas meninas" para trás.
"É nesse mesmo que vamos"
Dias depois, quando a quarentena acabou,
a única opção disponível para sair da Europa
era bem diferente. Não era um transatlântico de luxo
, mas um navio velho, um cargueiro de bananas adaptado
, cuja tripulação mal dava conta da navegação.
Ao ver aquela "banheira" enferrujada atracar, meu pai não hesitou.
Olhou para a família e disse a frase que selou nosso futuro:
— "É nesse mesmo que vamos."
Há um candidato muito forte para ser o navio que trouxe seus pais
. Os navios ingleses da Royal Mail Lines (a mala real inglesa
) eram os principais responsáveis por essa rota pós-guerra,
trazendo refugiados da Europa para a América do Sul.
O navio mais provável, que tem registros de chegada
com imigrantes europeus em 1948 (incluindo listas de desembarque
em Santos em abril de 1948), é o SS Highland Brigad
e ou um de seus irmãos da "Classe Highland"
(como o Highland Monarch ou Highland Chieftain).
Por que ele se encaixa: Eles saíam de portos europeus
(muitas vezes embarcando quem vinha via Hamburgo,
Gênova ou Lisboa), paravam no Rio de Janeiro
(onde os imigrantes iam para a Ilha das Flores)
e depois seguiam para Santos.
Eram navios mistos (carga e passageiros),
famosos por trazerem "vidas novas" para o Brasil.
O Kit de Sobrevivência na Selva
Antes de embarcar, Johann foi vítima dos "maus conselheiros"
e da falta de Google na época. Disseram a ele que o Brasi
l era uma selva selvagem, sem infraestrutura.
Preocupado em garantir a sobrevivência da família,
o engenheiro gastou suas economias
comprando um "enxoval de pioneiro":
Fósforos (muitas caixas, para fazer fogo na mata).
Pás e picaretas (para abrir clareiras e construir abrigos).
Papel de carta e lápis (pois diziam que não havia como escrever lá).
Imaginem a cena: um nobre húngaro embarcando
num navio de bananas carregando picaretas
para enfrentar a Amazônia... q
ue ele achava que ficava no Rio de Janeiro.
A Odisseia no Mar
A viagem foi uma aventura à parte.
Como a tripulação era mínima, os passageiros tiveram
que assumir o comando da vida a bordo.
Fizeram uma votação, elegeram um chefe
e organizaram a limpeza e a cozinha.
Foi nessa viagem de 15 dias que minha mãe caiu da escada.
Sem raio-x a bordo, engessaram o braço dela por precaução.
E teve o drama da hélice.
O navio quebrou perto de Vitória (ES),
ficou dias emitindo SOS e negociando o preço do reboque
. Foi ali que, impedidos de descer, meus pais viram
a generosidade brasileira pela primeira vez:
o povo no cais jogava bananas e mangas para dentro do navio.
Uma festa de cores e sabores para quem vinha da cinza Europa.
O Choque de Civilização no Rio
Quando finalmente desembarcaram no
Rio de Janeiro e foram para a Ilha das Flores,
o choque foi reverso.
Ao verem os carros, os prédios, a eletricidade
e o comércio vibrante, meu pai percebeu
o tamanho do seu erro geográfico.
O Brasil não era uma selva.
As pás, as picaretas e os quilos de fósforo?
Viraram lixo ali mesmo no porto.
O único "lixo" que não foi jogado fora foi o tear Texmatic,
esse sim, a ferramenta certa para o lugar certo.
O Braço da Baronesa
Já em terra firme, um médico examinou minha mãe
e tirou o gesso. O braço estava intacto — nunca houve fratura.
Mas, pela falta de uso durante a viagem, estava
atrofiado e precisou de muita fisioterapia depois.
Era uma marca física daquela travessia:
uma ferida que não era grave, mas que exigiu tempo para curar.
E assim, sem picaretas mas com muita coragem
, os Purgly pisaram em solo brasileiro.
Não na selva, mas na civilização tropical.
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