Saga Purgly Postagem 16 O Menino, o Tear e a Vila Galvão
Saga Purgly Postagem 16: O Menino, o Tear e a Vila Galvão
Subtítulo: Minha infância ao som das máquinas, o pó de algodão no ar e a liberdade das ruas de terra.
Se 1956 foi o ano em que nasci, os anos seguintes foram o tempo em que o "brasileiro" Jorge começou a descobrir o mundo. E o meu mundo tinha um endereço certo: Vila Galvão, em Guarulhos.
Naquela época, Guarulhos não era a metrópole de concreto de hoje. Era uma cidade em construção, com cheiro de terra molhada e mato. A Vila Galvão era um bairro tranquilo, onde todos se conheciam, mas a nossa casa tinha uma particularidade: ela pulsava.
A Casa-Fábrica
Diferente dos meus amigos, que tinham casas silenciosas, eu cresci dentro da revolução industrial do meu pai. A Fiação Johann Purgly Tecelagem Dora não ficava num distrito industrial distante; ela ficava no nosso quintal.
Minha infância teve uma trilha sonora constante: o tla-tla-tla rítmico e incessante dos teares Texmatic e das máquinas Jacquard batendo os cartões perfurados.
Para muitos, aquele barulho seria incômodo. Para mim, era música de ninar. Significava que tudo estava bem, que meu pai estava criando, que a família estava prosperando.
O Ar que Respirávamos
Havia algo mágico no ar da nossa casa, literalmente. O processo de tecelagem solta uma fina poeira de algodão, uns fiapos minúsculos que flutuam contra a luz do sol. Lembro-me de tentar pegar aqueles "fantasminhas" de algodão com a mão.
Eu corria entre as máquinas, desviando das lançadeiras e dos fios de ouro e prata que meu pai produzia. A fábrica era meu playground proibido e fascinante. Ali eu via a mágica acontecer: o fio bruto entrava de um lado e o tecido de luxo, desenhado pelos cartões perfurados, saía do outro.
A Fronteira do Portão
A vida na Vila Galvão tinha duas dimensões.
Do portão para dentro,
era a Hungria. A disciplina era rígida, a língua era o húngaro (ou o alemão quando meus pais não queriam que eu entendesse), e a comida tinha o cheiro forte da páprica.
Do portão para fora,
era o Brasil. As ruas eram de terra, perfeitas para jogar bola, soltar pipa, bistecar bolinhas de gude no chão e andar de carrinho de rolimã, de brincar de esconde esconde, de pique japonês. Pais e mães, familias inteiras, saíam nas ruas para brincarem juntas. Eu era o menino protegido, o "Jancsika renascido", mas também era o Jorge que queria se misturar com a molecada brasileira.
A Espiritualidade no Quintal
Como mencionei antes, minha mediunidade aflorou cedo. Talvez por isso eu gostasse tanto do quintal e das áreas menos barulhentas da casa. Enquanto as máquinas trabalhavam na lógica dura da engenharia, eu, muitas vezes, conversava com meus "amigos invisíveis" entre as plantas que minha mãe cultivava e as engenhocas que meu pai deixava no pátio.
Eu tinha uma galinha, a Milis, um gato o Cinci e um cachorro vira lata, o Bodri.
Eu era uma criança observadora. Via o esforço hercúleo dos meus pais — ele na graxa e nos fios, ela nas vendas e na cozinha — e entendia, mesmo pequeno, que aquela fábrica era o nosso bote salva-vidas.
A Vila Galvão foi o meu primeiro laboratório. Ali aprendi sobre mecânica vendo meu pai consertar teares, e aprendi sobre a vida vendo minha mãe transformar clientes em amigos.
Eu não sabia ainda, mas aquelas máquinas barulhentas estavam tecendo não apenas panos, mas o meu caráter.

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